Aspereza (a crônica que virou poeira)

Sim, eu quero ajudar. Mas é claro que posso, sempre. Imagina, em nada me incomoda. Diga, o que quer de mim? – O pó!— pois então esse já está prestes a se espalhar ao vento. E alguns cobrarão – Não quero grãos!— sabe por quê? Porque nem todas as galinhas enchem o papo com migalhas. A vida hoje é a milhão! Uma porção em três investidas, nem se engasgam mais. E se um ‘cof’, têm de engolir em seco. Não! Não foi isso que sonharam, todos, para a vida deles. Mas, sim! Todos aceitamos a situação. E nos pegamos tendo espasmos de egoísmo. Atirem os dardos, porque estamos no centro do alvo… e adoramos! Isso nos torna mais vivos e fortes, não é isso? “Eu aguento o tranco, me supero a cada dia”. Sim: supera-se aquele que sabe dizer um belo ‘não’ quando deve ser dito. Sobrevive quem entende a hora da defesa. Segue em frente, assim, o que sabe furar a onda antes que ela o arraste para a areia, onde certamente seria esfolado até que nela se transformasse. E seria, então, pisado por aqueles que, correndo, chegam ávidos por arriscar um primeiro e desafiador mergulho na mesma praia em que morrem os outros. A água  sempre pronta para lascar a rocha, soprando as partículas que se acumulam no chão.

Por Isabela Rosemback

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Compilação boêmia

Retomando o propósito deste blog, recuperei algumas frases soltas, escritas entre tragos e rascunhos….

…[

"A minha mesa tem marcas de copos. Tem cinzas. As minhas bitas se espalham no forro. A brisa? É o tempo que não vejo.  No ar me condiciono."

"... e de pitadinha em pitadinha, acabei me refogando."

"Enquanto buscava cupins, quem me roía era eu! Mas não despenquei."

"Uma broca invade o meu peito e eu parafuso/ O humor das minhas horas é salgado e não tem fuso."

"E a noite me faz dia. Fatia. Fadiga. Diga. Go."

"Sweet dreams are made of  'cheers'"

Tim-tim!

]…

Por Isabela Rosemback

 

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O sonho que virou conto

Acabara de se mudar e estava eufórica com as amplas salas e os cinco banheiros daquela casa sem quartos. Um novo espaço com muitas camadas, um marido e muitas portas. Várias delas. Era uma após a outra, com trincos e maçanetas apenas nas faces externas. As visitas, desconhecidas, não paravam de entrar, com filhos ranhentos, vestido flamenco, biscoitinhos de isopor no saquinho plástico ou com a bíblia no sovaco contraído. Avançou os abutres como se bandeirante cego. Atacavam a geladeira e se estapeavam em falas inaudíveis. Rompeu a área de serviço e viu a rua escancarada. Porca, hostil. Gringos carecas e sem sobrancelhas exibiam suas tatuagens em sussurros. Havia chaves por todos os lados, mas não as alcançava. Sentiu um súbito ímpeto de fechar as cortinas dos cômodos. Lá fora, o carrinho de cachorro-quente cuspia fumaça e se recusava a servir aos outros. Na lataria, lia-se “Palhaço Peligroso”. Diante da cena, não sabia se ria ou se deixava-se ser engolida pela gélida escuridão. Para romper com a vizinhança morimbunda, bunda suja e fantasmagórica, olhou para cima. Os puxadores dos toldos que omitiriam a casa dos olhares populares eram altos. Pegou um banquinho e ainda era pouco. Atraiu olheiros. Quando no sofrível último lote de lona, zerou seu esforço. Ao redor, ainda o relento. Na calçada oposta, alguém empunhava a tesoura imerso entre um mar de panos grossos e amarelos. Aquela estranha mulher, na chuva, fatiava em silêncio. Voltou para a sala exausta. Não vou dormir hoje, não posso. Estava em um bolo de sem-dentes e mulheres afoitas com os peitos flácidos em tecidos justos. As crianças fuçavam em tudo. E as portas permaneciam com suas trancas para fora. O marido, efêmero, evaporou. Só e mal-acompanhada. Já conhece a mulher dele?, provocava a voz sem rosto. E a sombra com o molho em seu bolso. Ela entra aqui todos os dias… mora ao lado. Cerca elétrica resolve, esquivava-se. Ele nunca te disse? E correu para fora. Todas as máquinas –de roupa, de louça, do tempo—, nessa hora, desapareceram. Levaram-nas. Estava vazio, não lhe pouparam. Ele é louco por ela… A estante de livros, ó céus! Chocou-se, em transe, contra as placas de madeira que tentavam impedir a sua fuga. Estavam todos lá –o mesmo não podia dizer dos vinhos, das frutas, dos frios e dos pequenos defuntos da cozinha. Nem das vacinas. Deu sinal à estante errante da sarjeta. Se escafedeu, salva, Dali.

[Isabela Rosemback]

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Os números de 2010

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 1,800 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 4 747s cheios.

Em 2010, escreveu 21 novos artigos, nada mau para o primeiro ano! Fez upload de 19 imagens, ocupando um total de 2mb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 14 de abril com 168 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Guardanapos?!.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram twitter.com, orkut.com.br, facebook.com, fotografeirosderibeirao.blogspot.com e nocloset.ovale.com.br

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por rascunhos de guardanapo, isabela rosemback, “existe algo mais real que um fantasma?” ; “o contrário do amor é um estado constante de perplexidade” e familia rosemback no rio de janeiro

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Guardanapos?! abril, 2010
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2

Cotidilema abril, 2010
6 comentários

3

Pra enganar o branco… junho, 2010
4 comentários

4

Como um cometa! abril, 2010
4 comentários

5

Hilda Hilst abril, 2010
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Voltando às origens

Novos rascunhos boêmios…

“Quando vim, não entendi o que era, apenas existi.  Sabendo ser, não liguei para o quê e, querendo, cheguei a lugar algum. Sem pretensões, acabei virando. Mas, ao ver, por completo me esqueci. Então, daquilo que conquistei sorrindo, embrutecida desisti. Pois, convicta de que tentei e fui, percebi que renasci”

“Amadureço a uma velocidade imatura. Distraio-me com o ritmo de uma respiração surda. E me canso do meu próprio silêncio, que vive a me dizer tantas coisas nulas. Entendo que sou múltipla e que, logo, não sou nenhuma”

Por Isabela Rosemback

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Folha seca

O que fazia aquela folha ser melhor do que as outras que a cercavam era a sua crença de que ela era a mais forte de todas, por sua formação. Esta era a mais verde da copa, e creditava este sucesso à vantagem de ter, em seus primórdios, se desenvolvido em uma posição privilegiada, bem ao sol. E, com o crescimento do tronco, ela também acabou ocupando um dos galhos mais altos da árvore, o que lhe conferia certo prestígio. Ela adorava tudo isso porque, além de observar a todos de cima, ainda tinha a certeza de que em uma remota chance de fragilidade, sua queda seria amortecida por aquelas que avolumavam a sua vizinhança. Mas o que a verde folha não percebia era que, do topo de sua ensolarada convicção, ela acabava por condenar à sombra as demais integrantes da copa, o que fazia com que ela não as conseguisse enxergar por completo. Por mais que dissesse que conhecia a todas, profundamente, sua vista era parcial. Um dia se deu conta disso, de maneira trágica. Enroscou-se em um fio da rede elétrica e levou um choque de realidade, sendo arremessada com assustadora velocidade ao chão, após sofrer uma poda por serra elétrica. Lá de baixo, enquanto perdia sua coloração, a folha se deu conta de que, na mesma árvore em que sempre acreditou reinar, penduravam-se ricos frutos doces e de alegres cores, que todos os dias atraíam dezenas de pessoas para o pé de sua morada. Morreu sem entender nada, sob os olhares incomodados daqueles que conseguiam se desenvolver com menos luminosidade.

Por Isabela Rosemback

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Update retardado

Vivo no mundo que esbarra, mas não sente. Que enxerga, mas sem ter profundidade de campo. É um universo inteiro em diâmetro de menos de metro. E que resiste na sobrevida. Que agoniza e se diverte em um contexto, de fato, engraçado. Nessa onda, eu rio correnteza. Nos momentos inapropriados, me dispo sem certeza. Vivo das trevas de gente compacta, que se conforta na sombrinha. Dou passos miúdos no meu melhor caminho, que é o que conheço. Mas enxergo em 360 graus –Celsius. Respiro um ar seco, eu me ardo. Desconfio de mim, de você e do mundo. Pois sou totalmente vulnerável, eu não durmo. Adoro acompanhar o oscilar do dia. Da luz, do humor e do que for. Mas eu sempre acordo. E ando por entre as pessoas que esbarram nelas mesmas. Só então, no final das horas, eu deito na minha própria felicidade monótona –que nunca é a mesma.

Por Isabela Rosemback

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Pra enganar o branco…

Tenho rezado todos os dias para a Santa Atualização. Mas desconfio que ela anda tão ocupada quanto eu, é o que me parece… “Ora, moça! Trate de trabalhar!”. Ora, moça… bastante… para o Senhor do tempo.

Por Isabela Rosemback

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Relações Silenciosas

“Evidentemente que os outros não me conheciam; mas eu… eu os conheço. Conheço-os até muito bem” – Dostoiévski, em “Noites Brancas”

            

Ilustração: Ronny Santos

             As rodas que levavam o anônimo ao destino de que não se sabe, com a enorme caixa de isopor à frente do guidão, eram as mesmas que cruzavam, todas as manhãs, com as rodas de meu carro.
            Na curvinha da avenida, quando eu estava prestes a fazer a primeira parada do dia, antes da minha estacionada cotidiana, lá estava ele—sempre pedalando o peso da caixa de poucos gramas, aparentemente, mas que também nunca se soube o que guardava.
           Toda vez em que o via, eu olhava para o relógio do painel do meu carro e comentava: “Hoje estamos atrasados”, ou “hoje ele está atrasado”, ou outras frases que, em geral, comparavam o nosso horário ao dele.
            Deu-se que um dia reparamos nele na curva. No seguinte, “olha ele de novo!”. Assim foi que nossos encontros se tornaram rotina. Quando não o víamos, logo entendíamos: alguma das partes havia se adiantado—ou retardado.
            Tudo era uma questão de coordenada. Se nossas rodas se encontrassem na pista sentido centro, os dois no carro tínhamos minutos de folga. Caso elas se entreolhassem durante a curva, éramos os três pontuais. Na pista sentido bairro, o cruzamento significava atraso. Claro que com variantes, porque tudo era medido a partir do horário acusado no relógio digital.           
            Tornamo-nos, assim, conhecidos silenciosos. Sempre me questionava se ele chegava a reparar que aquele carro-bolinha branco o cumprimentava todas as manhãs, da mesma maneira que nós recebíamos o seu “bom dia”.
            Outra noite, dessas que deixam de ser caladas em razão do estridente som dos nossos debates, falei sobre isso aos amigos.
            É o mesmo caso do motorista do ônibus do qual eu havia deixado de ser passageira há três anos. Ao subir novamente no coletivo, nos cumprimentamos com a euforia de quem não se via há tempos, mas se sentia contente em rever o outro.

Ilustração: Ronny Santos

             É o mesmo caso dos vendedores das barraquinhas nas ruas em que você transita. É o caso do caixa do restaurante em que você almoça nos dias de trabalho. Ou das pessoas que frequentam o mesmo bar ou a mesma academia aos quais costuma ir.

             Uma hora você acena a cabeça ou puxa o cantinho do lábio ao outro, e se sente bem por isso—mesmo parecendo não fazer o menor sentido. Pelo menos eu sou assim, ao mesmo tempo em que mantenho relacionamentos mudos (por opção) com pessoas que conheço bem.
            No livro “Noites Brancas”, de Fiódor Dostoiévski, o protagonista é um homem solitário que cria laços com prédios e casas que conversam com ele nos trajetos alternados que faz no dia-a-dia. De longe, ele observa as pessoas e é como se as conhecesse.
            Para mim, o anônimo joseense (da bicicleta) é como o senhor que o personagem do livro sempre encontra no mesmo restaurante. 
            “Estou certo de que, quando ele não me encontrava naquela hora, como de costume, devia sentir uma certa contrariedade”, escreve o autor russo à página 12 da versão editada pela L&PM Pocket.
            Esses relacionamentos silenciosos afetam o personagem de tal maneira, que ele chega a se sentir ofendido quando todos deixam a cidade nas férias.
            “Era como se de um momento para o outro todos tivessem se esquecido de mim, como se, no fundo, eu fosse completamente estranho para todos”, diz à página 16.
            Mas muita gente não enxerga o outro. Pode passar anos circulando nos mesmos lugares e vendo as mesmas pessoas, que não vai se sentir nem um pouco intrigada com a sua presença.
            Eu sou o contrário. Intrigo-me com os que não conheço, sempre me intriguei. Mas muitas vezes perco o interesse por aqueles que descubro terem sido um desprazer conhecer. Eu sorrio para as pessoas na rua, mas se a pessoa próxima não merece o meu sorriso, eu me fecho.
            E essa ideia me faz lembrar de Clarisse Lispector, trecho que li esses dias: “Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só”.
            É, acho que é só.

Ilustração: Ronny Santos

Por Isabela Rosemback

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Chico Brazuca

“Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado de tanta música que eu acho que não entra mais nada” – Chico Buarque

Olá, letreiros!

Acabo de ler uma entrevista [de certa maneira informal] cedida por Chico Buarque à revista Brazuca, em Paris. Como eu super gostei, resolvi compartilhar. É só clicar aqui!
Espero que façam uma boa viagem…

Ponto.

Chico durante o show "Carioca", no Canecão. Tive o prazer de vê-lo de perto, na mesma casa, nos tempos de "As Cidades" Foto: Marcos D'Paula/AE (CtrlC: R7)


Por Isabela Rosemback

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