Arquivo do mês: junho 2011

Aspereza (a crônica que virou poeira)

Sim, eu quero ajudar. Mas é claro que posso, sempre. Imagina, em nada me incomoda. Diga, o que quer de mim? – O pó!— pois então esse já está prestes a se espalhar ao vento. E alguns cobrarão – Não quero grãos!— sabe por quê? Porque nem todas as galinhas enchem o papo com migalhas. A vida hoje é a milhão! Uma porção em três investidas, nem se engasgam mais. E se um ‘cof’, têm de engolir em seco. Não! Não foi isso que sonharam, todos, para a vida deles. Mas, sim! Todos aceitamos a situação. E nos pegamos tendo espasmos de egoísmo. Atirem os dardos, porque estamos no centro do alvo… e adoramos! Isso nos torna mais vivos e fortes, não é isso? “Eu aguento o tranco, me supero a cada dia”. Sim: supera-se aquele que sabe dizer um belo ‘não’ quando deve ser dito. Sobrevive quem entende a hora da defesa. Segue em frente, assim, o que sabe furar a onda antes que ela o arraste para a areia, onde certamente seria esfolado até que nela se transformasse. E seria, então, pisado por aqueles que, correndo, chegam ávidos por arriscar um primeiro e desafiador mergulho na mesma praia em que morrem os outros. A água  sempre pronta para lascar a rocha, soprando as partículas que se acumulam no chão.

Por Isabela Rosemback

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Compilação boêmia

Retomando o propósito deste blog, recuperei algumas frases soltas, escritas entre tragos e rascunhos….

…[

A minha mesa tem marcas de copos. Tem cinzas. As minhas bitas se espalham no forro. A brisa? É o tempo que não vejo.  No ar me condiciono.

… e de pitadinha em pitadinha, acabei me refogando.

Enquanto buscava cupins, quem me roía era eu! Mas não despenquei.

Uma broca invade o meu peito e eu parafuso/ O humor das minhas horas é salgado e não tem fuso.

E a noite me faz dia. Fatia. Fadiga. Diga. Go.

Sweet dreams are made of  ‘cheers’

Tim-tim!

]…

Por Isabela Rosemback

 

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O sonho que virou conto

Acabara de se mudar e estava eufórica com as amplas salas e os cinco banheiros daquela casa sem quartos. Um novo espaço com muitas camadas, um marido e muitas portas. Várias delas. Era uma após a outra, com trincos e maçanetas apenas nas faces externas. As visitas, desconhecidas, não paravam de entrar, com filhos ranhentos, vestido flamenco, biscoitinhos de isopor no saquinho plástico ou com a bíblia no sovaco contraído. Avançou os abutres como se bandeirante cego. Atacavam a geladeira e se estapeavam em falas inaudíveis. Rompeu a área de serviço e viu a rua escancarada. Porca, hostil. Gringos carecas e sem sobrancelhas exibiam suas tatuagens em sussurros. Havia chaves por todos os lados, mas não as alcançava. Sentiu um súbito ímpeto de fechar as cortinas dos cômodos. Lá fora, o carrinho de cachorro-quente cuspia fumaça e se recusava a servir aos outros. Na lataria, lia-se “Palhaço Peligroso”. Diante da cena, não sabia se ria ou se deixava-se ser engolida pela gélida escuridão. Para romper com a vizinhança morimbunda, bunda suja e fantasmagórica, olhou para cima. Os puxadores dos toldos que omitiriam a casa dos olhares populares eram altos. Pegou um banquinho e ainda era pouco. Atraiu olheiros. Quando no sofrível último lote de lona, zerou seu esforço. Ao redor, ainda o relento. Na calçada oposta, alguém empunhava a tesoura imerso entre um mar de panos grossos e amarelos. Aquela estranha mulher, na chuva, fatiava em silêncio. Voltou para a sala exausta. Não vou dormir hoje, não posso. Estava em um bolo de sem-dentes e mulheres afoitas com os peitos flácidos em tecidos justos. As crianças fuçavam em tudo. E as portas permaneciam com suas trancas para fora. O marido, efêmero, evaporou. Só e mal-acompanhada. Já conhece a mulher dele?, provocava a voz sem rosto. E a sombra com o molho em seu bolso. Ela entra aqui todos os dias… mora ao lado. Cerca elétrica resolve, esquivava-se. Ele nunca te disse? E correu para fora. Todas as máquinas –de roupa, de louça, do tempo—, nessa hora, desapareceram. Levaram-nas. Estava vazio, não lhe pouparam. Ele é louco por ela… A estante de livros, ó céus! Chocou-se, em transe, contra as placas de madeira que tentavam impedir a sua fuga. Estavam todos lá –o mesmo não podia dizer dos vinhos, das frutas, dos frios e dos pequenos defuntos da cozinha. Nem das vacinas. Deu sinal à estante errante da sarjeta. Se escafedeu, salva, Dali.

[Isabela Rosemback]

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