O sonho que virou conto

Acabara de se mudar e estava eufórica com as amplas salas e os cinco banheiros daquela casa sem quartos. Um novo espaço com muitas camadas, um marido e muitas portas. Várias delas. Era uma após a outra, com trincos e maçanetas apenas nas faces externas. As visitas, desconhecidas, não paravam de entrar, com filhos ranhentos, vestido flamenco, biscoitinhos de isopor no saquinho plástico ou com a bíblia no sovaco contraído. Avançou os abutres como se bandeirante cego. Atacavam a geladeira e se estapeavam em falas inaudíveis. Rompeu a área de serviço e viu a rua escancarada. Porca, hostil. Gringos carecas e sem sobrancelhas exibiam suas tatuagens em sussurros. Havia chaves por todos os lados, mas não as alcançava. Sentiu um súbito ímpeto de fechar as cortinas dos cômodos. Lá fora, o carrinho de cachorro-quente cuspia fumaça e se recusava a servir aos outros. Na lataria, lia-se “Palhaço Peligroso”. Diante da cena, não sabia se ria ou se deixava-se ser engolida pela gélida escuridão. Para romper com a vizinhança morimbunda, bunda suja e fantasmagórica, olhou para cima. Os puxadores dos toldos que omitiriam a casa dos olhares populares eram altos. Pegou um banquinho e ainda era pouco. Atraiu olheiros. Quando no sofrível último lote de lona, zerou seu esforço. Ao redor, ainda o relento. Na calçada oposta, alguém empunhava a tesoura imerso entre um mar de panos grossos e amarelos. Aquela estranha mulher, na chuva, fatiava em silêncio. Voltou para a sala exausta. Não vou dormir hoje, não posso. Estava em um bolo de sem-dentes e mulheres afoitas com os peitos flácidos em tecidos justos. As crianças fuçavam em tudo. E as portas permaneciam com suas trancas para fora. O marido, efêmero, evaporou. Só e mal-acompanhada. Já conhece a mulher dele?, provocava a voz sem rosto. E a sombra com o molho em seu bolso. Ela entra aqui todos os dias… mora ao lado. Cerca elétrica resolve, esquivava-se. Ele nunca te disse? E correu para fora. Todas as máquinas –de roupa, de louça, do tempo—, nessa hora, desapareceram. Levaram-nas. Estava vazio, não lhe pouparam. Ele é louco por ela… A estante de livros, ó céus! Chocou-se, em transe, contra as placas de madeira que tentavam impedir a sua fuga. Estavam todos lá –o mesmo não podia dizer dos vinhos, das frutas, dos frios e dos pequenos defuntos da cozinha. Nem das vacinas. Deu sinal à estante errante da sarjeta. Se escafedeu, salva, Dali.

[Isabela Rosemback]

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6 Comentários

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6 Respostas para “O sonho que virou conto

  1. Vim por essas bandas, e por aqui passarei por várias vezes. Deixo uma fungada de felicidade em cada sílaba. Beijo Isabela. : *

    • Obrigada, Iana!
      Sinta-se responsável por este post. Sua mensagem, hoje, me incentivou a recuperar guardanapos. Coisa que há tempos queria, mas não fazia.
      Seus desenhos também me alegrarm na tarde de hoje!
      Bjo!

  2. nina

    muito legal isa!!!

  3. Magô

    Embasbaquei-me…Lindo, lindo!

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