Amabilidade gratuita


A abordagem direta foi intimidadora,
mas o oculto do batom continua me arrancando sorrisos.

Os braços abertos deram-me um susto, ‘de pronto’, quando me surpreenderam enquanto eu andava olhando para a avenida. Integravam o corpo afoito de um rapaz de cabelos espetados por gel e dono de um sorriso espichado para as laterais em uma espécie de paralisia dos lábios que, entreabertos, ainda conseguiam insistir por um abraço. A boca, as mãos. Os olhos arregalados. Era como se o visse em câmera lenta, a voz alterada pela rotação retardada. “Um aaabraaaaçoooo…”, ainda com os dedos afastados e esticados, movimentando a cintura para que o tronco descaísse brevemente de um lado e de outro feito um ponteiro de relógio enroscado entre segundos. Balançava sem sair do lugar, a um passo de mim, mecanicamente alegre e visivelmente inseguro. Eu ali, hesitante.

Uma risadinha de quem queria se livrar logo daquilo deu o impulso das desculpas em minha garganta e jogou meus pés para a faixa de pedestres, acompanhados de minha cunhada de 12 anos —em quem já tinha dado vários abraços naquela manhã de passeio em São Paulo. Ela me olhou com cara de quem não entendia nada. Era a turma do abraço grátis, expliquei, que implorava por um aperto de corpos em uma interação de pura pressão e constrangimento.

Talvez não tenha sido um bom momento daquele garoto e nem meu. Duas semanas antes, algo ingênuo e mais interessante havia me ocorrido. No vidro do passageiro do carro, a marca de um beijo selado em batom rosa passou a me acompanhar nos meus caminhos, em dias de convívio com a saudade do namorado, ausente de casa para trabalhar em outro canto do continente. Fixada do lado de fora da janela, a forma colorida me instigou de uma maneira infinitamente mais branda que o incisivo distribuidor de afetos gratuitos da avenida Paulista. Ela estava ali, simpática e inabalável, pedindo silenciosamente por um sorriso meu. E eu gargalhei, de forma infantil, ao descobri-la quando fui tirar o veículo da garagem. Admito que soltei outras risadas frouxas em todas as demais vezes que precisei olhar para o lado para me certificar de que poderia avançar à pista seguinte. Uma manifestação simples, mas acolhedora.

A marca que me beija todos os dias

Em um primeiro momento pensei que fosse obra de minha irmã, que me fez companhia entre goles de cerveja na madrugada anterior. Mas ela negou. O beijo era anônimo. Recapitulei que naquela noite, antes de ir para casa receber as visitas, parei no Sesc para assistir a um show e estacionei o carro na rua, ao lado de uma padaria. Dali, portanto, devo ter passado a cortar a escuridão transportando o símbolo que, discreto, dormiu à espera de reconhecimento. Não interessa se resultado de uma atitude bêbada e despretensiosa ou se de uma ação planejada para espalhar afeto. Para mim, a espontaneidade e o ineditismo daquela iniciativa terem me alegrado por dias, trazendo implícitas algumas reflexões, já valeram e bastaram.

Não faz uma semana, fui apresentada ao texto de um talentoso artista de rua do qual já havia assistido a depoimentos em vídeo. Ele falava de problemas familiares —união, filho, planos, desilusões amorosas…— e em certo momento narrou a  noite em que soube, pelo orelhão, que a mulher de sua vida iria mudar-se para longe em três dias levando no colo o seu descendente. As palavras seguintes dedicavam-se a descrever a forma como seu mundo desabou naquele instante, com o autor expondo seu choro copioso na rua. O que mais me chamou a atenção em todo o relato, entretanto, foi o dado de que, em meio a esse caos sentimental, ele foi erguido delicadamente da calçada por uma pessoa que o abraçou por tempo suficiente até que se acalmasse. “Não me lembro se homem ou se mulher”, escreveu antes de concluir que só então pôde voltar para casa, atenuado o seu desespero.

Diante dos fatos, reforço que o conforto ao próximo nunca me soou como algo que se forneça esperando recompensa. Tampouco o carinho gratuito carece de pedido, deve ser engessado ou pressupõe-se irrestrito (afinal, há uma privacidade a ser respeitada). Se eu não estivesse tão plena de amor naquela manhã, e se não me sentisse intimidada pela abordagem agressiva daquele rapaz de cabelos espetados, eu poderia ter recebido aquele aperto ansioso pela prática da boa ação sem que me despertasse a vontade instantânea de entrar na minha concha e logo balançar uma bandeirinha branca lá fora, esperando que me deixassem em paz com a minha família. Eu sorriria e agradeceria. E naquele momento, talvez, passasse por trás da gente alguém à procura de uma forma humanizada de aliviar as suas angústias, na esperança de ver algum sentido nisso que chamamos de vida. E provavelmente ele passaria despercebido –se não passou, enquanto eu me esquivava.

Isso tudo porque nesse mesmo espaço de convivência em que estamos inseridos, dia após dia, muito é uma delicada questão de sensibilidade. E se ela nos escapa por tantas vezes, ainda que nos empenhemos em recuperá-la, não há outro caminho que não o de persistirmos em sua prática até que ela nos confie permanência. Um primeiro exercício poderia ser o de observar.

Confesso que ainda não lavei o vidro do meu carro, pois não enxergo ali nenhuma sujeira. Mas estou certa de que ainda há muita poeira para ser retirada de outros meios que nos conduzem em nossas trajetórias. Camadas essas que, se não forem reduzidas, podem acabar manchando a lataria.

Por Isabela Rosemback

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1 comentário

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Uma resposta para “Amabilidade gratuita

  1. Evelym Landim

    Lindo texto Isa, assim me tornarei sua leitora assídua. =) Beijocas!

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