Arquivo do mês: dezembro 2012

Coisas assim

De perninhas tão finas, que seria impossível torcê-las, e um marrom desbotado de camuflar-se pelas rachaduras dos galhos, escolheu justo os meus branco dedo e fluorescente braço para aventurar-se pela manhã. Não foi bem um susto, porque eu já o fitava desde que cheguei aqui, nesta quarta-feira. No teclado preto em relevo, me chamou a atenção a escolha pelos caminhos mais difíceis, escalando o 1 e o Q, desequilibrando-se entre o A e o W, desesperado para sair do Z e sentindo firmeza na longa tecla de espaço. As anteninhas trêmulas, e eu aguardando que ele completasse a lenta e desnorteada maratona para poder voltar à minha escrita. Bastou uma distração e lá estava ele em meu indicador, interrompendo novamente a minha corrente de ideias. Ergui a mão com o dedo em riste para bem pertinho do meu rosto e, conforme ele apalpava a minha pele, tão leve que nem cócegas eu sentia, fui relaxando as articulações. Fiquei ali a reparar em seus movimentos e acabei criando um vínculo imaginário com ele, meu novo amigo sem nome. Chamei-o joaninho, pela obviedade de sua forma, e achei extremamente ridículo e de mau gosto. Pensei tê-lo visto na mesma hora franzir a fronte, que tinha apenas três pontinhas negras sinalizando que ele deveria estar me entendendo, mesmo que em um provável mosaico de cores estranhas. Quis acreditar assim, diante da nova companhia.  Enroscou-se em minha unha e temi por aquelas frágeis patinhas a se debaterem entre a ponta do dedo e a estrutura vermelha. Salvei-o do perigo e voltei aos textos, ele (será que era ‘ele’, mesmo? Ele inseto, sim. Meu amigo) andando por toda a vastidão daquela enorme mesa que tinha a desbravar. Alguns minutos e o pequeno novamente em mim, agora no braço. Desisti da tarefa que penava em tentar completar e me rendi à carência daquele bicho. Pedi que ficasse à vontade em sua caminhada em direção à minha mão, e ele cambaleava. Foi então que senti uma dor ardida, daquelas que contraem o corpo e chegam ao ouvido, bem ali, onde ele estava. Não sei se foi trairagem ou se apenas se agarrou em mim. No reflexo, xinguei alto e ele foi parar longe com apenas um peteleco. Terminava ali todo o romantismo criado em minha cabeça, e eu ainda sentindo a perda e me recriminando pelo ato impensado. Bom foi que ele voltou ao meu campo de visão em pouco tempo e, fingindo-se de morto, me acompanhou quietinho pelo resto da tarde em cima do caderno –em cumplicidade, fingi que acreditava em seu óbito. Ao final do dia, levantou-se meio tonto e pegou a estrada, ainda em tempo de eu dizer adeus e confidenciar que foi boa a rápida parceria.

Ele em meu braço

Ele em meu braço

Por Isabela Rosemback

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Calma, moça…

A semana pareceu-me duas, mas foi uma só. Entre lutos, festas, e muito trabalho novo, não tive tempo nem de pensar em mim ou mesmo em tudo o que está acontecendo com as mudanças que escolhi para a minha vida, ainda sem tantas definições. “Eu acordo e durmo falando com você”, disse a nova cliente, sem mentir. Acordar tem sido um salto da cama, com ideias já fervilhando. Um dia de efêmera despedida, dois dias de viagens, outros de muita agitação por aqui, mas a mente nunca em descanso. Nem parece que até terça eu estava sentada naquela bancada, onde tudo é calmo e a gente engorda sorrindo. A ficha ainda não caiu, não teve espaço pra isso. Nem mesmo o luto figurado vivido na semana pôde ser assimilado –e muito menos digerido, o que certamente demandará mais tempo e empenho de minha parte.
O contexto todo se justifica porque, abandonando a calmaria para viver na correria, entrei em um estacionamento de supermercado ao final da última semana ainda pilhada, pensando nas mil coisas que povoavam a minha cabeça naquele momento, e, ao avistar uma vaga e perceber que um casal caminhava em minha direção a alguns passos dela, me apressei a embicar o carro para estacionar de ré em tempo mínimo, a fim de não segurar os pedestres. Os bracinhos multiplicavam-se mudando a marcha e fazendo manobras estapeando a direção –um desespero só! Foi aí que ouvi, quando olhava para o lado oposto ao da voz:
— Calma, moça! Sem pressa… Pode estacionar tranquila, não tem problema.
A sensação foi a de como se tivesse tomado um relaxante muscular, daqueles que nos deixam grogues e esparramados no sofá. Respirei aliviada e senti um amarguinho me torcer a goela. Naquele instante anestesiado parece que retomei a consciência. Eu estava indo para o descanso, obstinada a comprar uma caixinha de cerveja para dividir com a minha irmã, em um pedido de trégua à turbulência, mas ainda agia no piloto automático acima da velocidade média permitida.
Voltei-me àquela senhora com um olhar semelhante ao de um vira-lata que recebe um afago ao invés do chute esperado. Era uma mulher de fios brancos, longa trança e marido ao lado, e que sinalizava com a cabeça uma amigável autorização: “Pode demorar, filha. Não se apresse”, numa tradução livre de sua mímica afirmativa.
Ao entrar na vaga e ao ver a paciente mulher passar em frente ao carro, abri o vidro eufórica e gritei o obrigada mais agradecido da minha semana. Duas vezes. Ela continuou andando naquele corredor de veículos, empurrando suavemente o seu carrinho. “Obrigada”, repeti para nós duas, mesmo ela a perder de vista. Tardei a sair do carro e circulei vagarosa por entre as baias do comércio.
Numa semana em que a morte anunciada do respeito me espetou o ouvido e me alterou os batimentos cardíacos e o tom de voz, essa gentileza tão aparentemente ingênua me fez pensar que o mundo não é assim tão ingrato e individualista como vinha sendo pintado à minha frente nos últimos dias. E a voz dessa senhora, tão incrivelmente colocada em meu caminho, no fundo soou-me como se uma manifestação externa de um desejo propriamente meu.
Escrevo para agradecer novamente a ela por me permitir parar por alguns minutos, em meio ao fluxo, para pensar sobre o que de fato me move. Também por sua permissão para que eu pudesse ocupar um novo lugar sem toda aquela pressão que promove a cegueira e a deformação. Quisera eu poder fazer o mesmo e, portanto, poder dizer “Calma, sem pressa. Ponha-se no seu lugar”. Feito isso, igualmente passaria pelo corredor arrastando a minha bagagem, sem precisar olhar para trás. O problema é que ando meio rouca e alguns motoristas têm demonstrado certa surdez.

Por Isabela Rosemback

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