Coisas assim

De perninhas tão finas, que seria impossível torcê-las, e um marrom desbotado de camuflar-se pelas rachaduras dos galhos, escolheu justo os meus branco dedo e fluorescente braço para aventurar-se pela manhã. Não foi bem um susto, porque eu já o fitava desde que cheguei aqui, nesta quarta-feira. No teclado preto em relevo, me chamou a atenção a escolha pelos caminhos mais difíceis, escalando o 1 e o Q, desequilibrando-se entre o A e o W, desesperado para sair do Z e sentindo firmeza na longa tecla de espaço. As anteninhas trêmulas, e eu aguardando que ele completasse a lenta e desnorteada maratona para poder voltar à minha escrita. Bastou uma distração e lá estava ele em meu indicador, interrompendo novamente a minha corrente de ideias. Ergui a mão com o dedo em riste para bem pertinho do meu rosto e, conforme ele apalpava a minha pele, tão leve que nem cócegas eu sentia, fui relaxando as articulações. Fiquei ali a reparar em seus movimentos e acabei criando um vínculo imaginário com ele, meu novo amigo sem nome. Chamei-o joaninho, pela obviedade de sua forma, e achei extremamente ridículo e de mau gosto. Pensei tê-lo visto na mesma hora franzir a fronte, que tinha apenas três pontinhas negras sinalizando que ele deveria estar me entendendo, mesmo que em um provável mosaico de cores estranhas. Quis acreditar assim, diante da nova companhia.  Enroscou-se em minha unha e temi por aquelas frágeis patinhas a se debaterem entre a ponta do dedo e a estrutura vermelha. Salvei-o do perigo e voltei aos textos, ele (será que era ‘ele’, mesmo? Ele inseto, sim. Meu amigo) andando por toda a vastidão daquela enorme mesa que tinha a desbravar. Alguns minutos e o pequeno novamente em mim, agora no braço. Desisti da tarefa que penava em tentar completar e me rendi à carência daquele bicho. Pedi que ficasse à vontade em sua caminhada em direção à minha mão, e ele cambaleava. Foi então que senti uma dor ardida, daquelas que contraem o corpo e chegam ao ouvido, bem ali, onde ele estava. Não sei se foi trairagem ou se apenas se agarrou em mim. No reflexo, xinguei alto e ele foi parar longe com apenas um peteleco. Terminava ali todo o romantismo criado em minha cabeça, e eu ainda sentindo a perda e me recriminando pelo ato impensado. Bom foi que ele voltou ao meu campo de visão em pouco tempo e, fingindo-se de morto, me acompanhou quietinho pelo resto da tarde em cima do caderno –em cumplicidade, fingi que acreditava em seu óbito. Ao final do dia, levantou-se meio tonto e pegou a estrada, ainda em tempo de eu dizer adeus e confidenciar que foi boa a rápida parceria.

Ele em meu braço

Ele em meu braço

Por Isabela Rosemback

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3 Comentários

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3 Respostas para “Coisas assim

  1. Fabiano Costa

    Coitado do Joaninho…

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