Arquivo do mês: janeiro 2013

Morte Adjetivada da Roda

Naquela sala burocrática onde muito entrava e quase nada saía —uma espécie de fortaleza corporativa à prova de obreiros—, Zé pisou mareado pela liquidez do solo que o embalava com ressaca causada não só pela revolta dos aquíferos, mas também pela inquietude da moral, embora ficasse confuso sobre o significado daquilo: que moral tinha ele, afinal? Zé descalço e duramente ornamentado. Passou pelo vão da porca porta já atordoado pela luta que o impulsionara até aquele fétido fundo de cômodo, que mais parecia um longo corredor de espinhosas paredes ­­­­­­sedentas por lhe espetarem a pele em busca de alimento. O atalho vencido levava o avatar à fase final do jogo, ali diante de seus opositores para o derradeiro e enfadonho enfrentamento. Assento não tinha, obviamente. Pelo menos não para ele —o maldotado e errabundo peão descalço, sempre trajado de rota armadura de ferro. Surfista cearense na Praia do Futuro, equilibrando-se naquele chão movediço com destreza e contrariedade.

Cercado pelas pilhas de atrasos empapelados que separavam o servo do servo –e esta era outra ideia que lhe levava a coçar o cocuruto, Como o mesmo podia apresentar-se como tão diferente? (e sempre, em sua feliz ignorância, acabava sorrindo irônico sem nem cutucar resposta)—, o oponente tentava ser elegante sem sucesso (era algo que não lhe cabia, tinha mau caimento). O burocrata, dono de nada a não ser aquela ilusória crença no poder, usava uns trapos fingindo-se de finos, mas que denunciavam a sua provável doença de nome pomposo (hiper…), a começar pelas enormes poças absorvidas pela camisa nas odoradas suvaqueiras peludas. Duas enormes pizzas, reparava o alvo, chegando a pensar que talvez fosse esta a razão da correnteza indomada sob os seus pés (por bem, o nojo repentino logo expulsou a imagem de suas ideias com rispidez). No peixeiro administrativo, aquela frequente expressão facial de quem não sabe a que veio, bem como aquelas pálpebras pesadas de morosidade e preguiça, faziam-se desconcertantes. O senhor das cifras e dos nomes catalogados era pouco consciente de seu caráter substituível, mas deliciava-se com a substituição daqueles que organizava por ordem alfabética em seus escaninhos. Zé sabia bem do alheio prazer sórdido —o rei das secreções era também previsível— e tratou de desviar o olhar daquele rosto orvalhado e sádico que fitava a ele e a seus documentos, recém-entregues, com gula demoníaca.

Bastou esticar um pouco a vista para além do incômodo, que uma segunda pessoa lhe surgiu em foco. A presença vestia um tailleur que certamente havia tirado do armário da filha (só essa versão parecia fazer sentido ao crítico Zé daquele momento) e mumificou-se desconfortável a espreitar os acontecimentos. Apenas mexia os olhos pretos e saltados em direção a um servo e a outro —ela também enquadrada na categoria— em sequência sincopada. Por sua vez o pobre Zé, então prestes a grafar o final no caderno de pontos, não assinou nada, na primeira pressionada, por se distrair com a dramática súplica de um botão que compunha o encolhido terninho claro da dama empalhada: a casa à altura do ventre, em que a peça alojara-se, era repuxada para o lado contrário àquele em que ela estava costurada. A esfera enforcada ameaçava romper com as amarras, e Zé temia a fratura das linhas no instante em que reparou em outro detalhe no boneco de cera de anexos olhos vivos: finalmente folgado, graças a uma bem arejada fresta entre os lados de tecido esticados em repulsão, o umbigo da senhora embalsamada fazia graça ao observador, que teve de se conter para não rir de tão decadente performance em hora inoportuna como aquela.

Assinou as folhas todas e despediu-se, aquele mesmo homem, naquele mesmo dia, pensando nos próximos blocos de cimento que teria de carregar em obras posteriores –talvez fossem só tijolos, o tempo diria. E já na área externa do abafado centro de negócios, o remanso alcançou seus pés. Sentindo o refresco entre os dedos, Zé despiu-se da pesada vestimenta que o sufocava e enfim entregou-se ao banho de calmaria daquelas águas. O botão em crise já podia arrebentar à vontade, não se importava. Estava longe.

Por Isabela Rosemback

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Mais vale pouco

Não que minhas mãos se fizessem duras, mas também meu riso estava longe de estar mole. Bem ficava na solidão do meu cúmplice relacionamento, longe daquela multidão que preferia esvaziar o salão nos últimos minutos do show para evitar, assim, transtornos para aquele efêmero momento de suas vidinhas (de cada uma delas), soltando um velado “foda-se” para a música que estava sendo exposta. E o cantor ali, emudecido em seu raivoso cantorinhar autoral —quanta perda de saliva eu calculei! A lealdade dos fãs apenas no conforto, reduzindo a apresentação a um fictício espetáculo do absurdo. Um na mão vale mais do que vários voando era expressão que nada tinha a ver com aquilo, mas que pareceu fazer sentido quando tudo parecia ter ido para os ares, menos o amor romântico. Uma pieguice, ri mais tarde, mas você há de concordar que de mau gosto o entorno está cheio. É que no silêncio da casa os sons são menos opacos, você pode ouvi-los claramente a cada palavra que te acerta sem pudor ou regra. É nelas que você se reconhece sem precisar de um escudo refletor. Afinal, esse tipo de dialética não tem fórmulas ou formas, ou gêneros, ou hora marcada, muito menos respeita os seus horários e agenda, apenas vem e vai como num sopro de lucidez ou desespero. Sem maquiagens corretivas, sem teatrinho improvisado que conforta a realidade confrontada. Punhos semi-cerrados para darem um cruzado imaginário nas adversidades escolhidas, e o riso contido para não debochar daquilo que nunca me pareceu engraçado. Apenas as minhas mãos foram impedidas do relaxamento e do ataque, e meus lábios contiveram-se em suas contrações ou afrouxamentos. Todos os membros permanecem alertas, mas em paz. A vida mostra-se outra quando menos extremista, ainda que permaneçamos fiéis ao que nos move e ao que mantém os nossos pés no chão.

 

"Two of us riding nowhere... in the sun"

“Two of us riding nowhere… in the sun”

 

Por Isabela Rosemback

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