Arquivo do mês: outubro 2016

Uma crônica sem sentidos

De onde eu vim, uma escura bigodeira já nem arrisca abafar o piado que lhe escapa ambicioso pela cavidade que acabana, agudo de ferir tímpanos e nervos. Ao longe, o anúncio de sua chegada se faz de forma abrutalhada, com o oscilante assobio ocupando simultaneamente todos os ouvidos de seu perímetro sonoro.  Não é uma troca justa, pois ao bigode que nada enxerga não é concedida a luz que descerra sua visão de mundo.  Já às dormentes orelhas que tudo veem, a elas é dada uma chance de reagir ao desconfortante estímulo da provocação. Por fração de segundo, estimuladas pelo alto zunido a que abruptamente são expostas, as entranhas auditivas deixam o canal livre para que cada pio artificial do farto conjunto de pelos lhes reconceda o hesitante prazer da escuta atenta e gratuita. Afinal, há liberdade no canto de ave que expressa o imitador.  Mas à medida que ele se aproxima do orelhame, eleva o volume de sua descarga vocal. E o assobiador avança e bengala o chão, e os passos, seguros. Há, tão logo, regresso silêncio entre os ouvintes. Pálpebras contraídas: o som perfurante cutuca o convívio e irrompe a harmonia do espaço. A todos resta o recuo à balsâmica ausência de ruído. Condutos fechados formigam. Os ponteiros, como o monte de pelos bucais, seguem à risca trajeto usual, sem que muitos (alguém?) os percebam. Nem tic nem pio, nada mais vibra no ar transpassado pela outrora rumorosa pelugem, uma sina que leva para onde quer que vá, ainda que tudo mude. Até encontrar os seus, com quem delira em cantoria.

Por Isabela Rosemback

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