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Morte Adjetivada da Roda

Naquela sala burocrática onde muito entrava e quase nada saía —uma espécie de fortaleza corporativa à prova de obreiros—, Zé pisou mareado pela liquidez do solo que o embalava com ressaca causada não só pela revolta dos aquíferos, mas também pela inquietude da moral, embora ficasse confuso sobre o significado daquilo: que moral tinha ele, afinal? Zé descalço e duramente ornamentado. Passou pelo vão da porca porta já atordoado pela luta que o impulsionara até aquele fétido fundo de cômodo, que mais parecia um longo corredor de espinhosas paredes ­­­­­­sedentas por lhe espetarem a pele em busca de alimento. O atalho vencido levava o avatar à fase final do jogo, ali diante de seus opositores para o derradeiro e enfadonho enfrentamento. Assento não tinha, obviamente. Pelo menos não para ele —o maldotado e errabundo peão descalço, sempre trajado de rota armadura de ferro. Surfista cearense na Praia do Futuro, equilibrando-se naquele chão movediço com destreza e contrariedade.

Cercado pelas pilhas de atrasos empapelados que separavam o servo do servo –e esta era outra ideia que lhe levava a coçar o cocuruto, Como o mesmo podia apresentar-se como tão diferente? (e sempre, em sua feliz ignorância, acabava sorrindo irônico sem nem cutucar resposta)—, o oponente tentava ser elegante sem sucesso (era algo que não lhe cabia, tinha mau caimento). O burocrata, dono de nada a não ser aquela ilusória crença no poder, usava uns trapos fingindo-se de finos, mas que denunciavam a sua provável doença de nome pomposo (hiper…), a começar pelas enormes poças absorvidas pela camisa nas odoradas suvaqueiras peludas. Duas enormes pizzas, reparava o alvo, chegando a pensar que talvez fosse esta a razão da correnteza indomada sob os seus pés (por bem, o nojo repentino logo expulsou a imagem de suas ideias com rispidez). No peixeiro administrativo, aquela frequente expressão facial de quem não sabe a que veio, bem como aquelas pálpebras pesadas de morosidade e preguiça, faziam-se desconcertantes. O senhor das cifras e dos nomes catalogados era pouco consciente de seu caráter substituível, mas deliciava-se com a substituição daqueles que organizava por ordem alfabética em seus escaninhos. Zé sabia bem do alheio prazer sórdido —o rei das secreções era também previsível— e tratou de desviar o olhar daquele rosto orvalhado e sádico que fitava a ele e a seus documentos, recém-entregues, com gula demoníaca.

Bastou esticar um pouco a vista para além do incômodo, que uma segunda pessoa lhe surgiu em foco. A presença vestia um tailleur que certamente havia tirado do armário da filha (só essa versão parecia fazer sentido ao crítico Zé daquele momento) e mumificou-se desconfortável a espreitar os acontecimentos. Apenas mexia os olhos pretos e saltados em direção a um servo e a outro —ela também enquadrada na categoria— em sequência sincopada. Por sua vez o pobre Zé, então prestes a grafar o final no caderno de pontos, não assinou nada, na primeira pressionada, por se distrair com a dramática súplica de um botão que compunha o encolhido terninho claro da dama empalhada: a casa à altura do ventre, em que a peça alojara-se, era repuxada para o lado contrário àquele em que ela estava costurada. A esfera enforcada ameaçava romper com as amarras, e Zé temia a fratura das linhas no instante em que reparou em outro detalhe no boneco de cera de anexos olhos vivos: finalmente folgado, graças a uma bem arejada fresta entre os lados de tecido esticados em repulsão, o umbigo da senhora embalsamada fazia graça ao observador, que teve de se conter para não rir de tão decadente performance em hora inoportuna como aquela.

Assinou as folhas todas e despediu-se, aquele mesmo homem, naquele mesmo dia, pensando nos próximos blocos de cimento que teria de carregar em obras posteriores –talvez fossem só tijolos, o tempo diria. E já na área externa do abafado centro de negócios, o remanso alcançou seus pés. Sentindo o refresco entre os dedos, Zé despiu-se da pesada vestimenta que o sufocava e enfim entregou-se ao banho de calmaria daquelas águas. O botão em crise já podia arrebentar à vontade, não se importava. Estava longe.

Por Isabela Rosemback

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