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O do palco

Os olhos eram pesados, carregados por uma desconfiança dispersa. Uma fina linha de incerteza frente ao novo, e ele então bocejava o óbvio. Era tudo redundante. Apenas aquilo que bem sabia fazer, ignorando o contexto. Logo um olhar profundo, de análise penetrante, mas de eficiência fugaz.

As mãos tristes permaneciam lisas, ágeis. As veias salientavam a impulsividade dos membros, que contrastavam com um novo olhar velho, vítreo. Era solidão em sustenido, ressoando à visão do público.

A testa, esta também tendia ao tédio, enrugada como se quisesse se esconder daquele ambiente médio, povoado por pessoas desinteressadas, outras maltrapilhas, e uma meia dúzia de ouvintes esforçados.

Mesmo assim amorteci frente ao mórbido prazer do sonoro, de um fúnebre som ranzinza arranhado por aquela guitarra desbotada que ele com a perna apoiava. Aquela cara fechada me incomodava de fazer cócegas. Aquela testa franzida… e o bocejo solto, descarado…

Aí voltava o grito das cordas, que aquietava por segundos aquela implicância que voltava a tomar-me a lucidez quando o músico dava de coçar, lentamente,  a curvinha do rosto que leva o pescoço ao queixo. Com a ponta das unhas ele se estendia a roçar os pelos, para fora e para dentro, num vaivém automático como de um brinquedo com a pilha gasta.

Era como se dissesse à plateia: “E eu aí com vocês?”. Era quando recuperava a compulsão pela ligeireza dos dedos e tornava a tocar aquelas notas com as quais ele fazia música. E logo voltava a entreter-se com ele mesmo.

Eu, na mesa, me desacomodava ainda mais por não saber se era prazer ou obrigação aquele rito que ele cumpria no palco. Até o último som, mantive a postura torta.

Por Isabela Rosemback

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