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Aspereza (a crônica que virou poeira)

Sim, eu quero ajudar. Mas é claro que posso, sempre. Imagina, em nada me incomoda. Diga, o que quer de mim? – O pó!— pois então esse já está prestes a se espalhar ao vento. E alguns cobrarão – Não quero grãos!— sabe por quê? Porque nem todas as galinhas enchem o papo com migalhas. A vida hoje é a milhão! Uma porção em três investidas, nem se engasgam mais. E se um ‘cof’, têm de engolir em seco. Não! Não foi isso que sonharam, todos, para a vida deles. Mas, sim! Todos aceitamos a situação. E nos pegamos tendo espasmos de egoísmo. Atirem os dardos, porque estamos no centro do alvo… e adoramos! Isso nos torna mais vivos e fortes, não é isso? “Eu aguento o tranco, me supero a cada dia”. Sim: supera-se aquele que sabe dizer um belo ‘não’ quando deve ser dito. Sobrevive quem entende a hora da defesa. Segue em frente, assim, o que sabe furar a onda antes que ela o arraste para a areia, onde certamente seria esfolado até que nela se transformasse. E seria, então, pisado por aqueles que, correndo, chegam ávidos por arriscar um primeiro e desafiador mergulho na mesma praia em que morrem os outros. A água  sempre pronta para lascar a rocha, soprando as partículas que se acumulam no chão.

Por Isabela Rosemback

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A coruja e o urbano

Olá, letreiros!

Para este post, uma coincidência feliz. Em 2008 escrevi uma crônica sobre o crescimento da cidade pelo ponto de vista de uma coruja que há mais de 10 anos observava em um fio elétrico aqui de São José. Essa coruja se tornou, para mim, um amuleto–além, claro, de um bicho de estimação. Todos os dias passava pelo mesmo local e a procurava. Ao vê-la, super sorria.

Cortando para 2010, nos últimos meses ela já não estava mais lá, e eu estava prestes a escrever um texto lúgubre para lamentar que a minha profecia havia se concretizado.

Foi quando se deu o encontro das coisas: ontem à noite me deparei com a querida professora Thereza Osório em uma rua da Vila Ema. Conversamos, ela sempre muito agitada e simpática, e ela comentou que gostava desse mesmo texto de que falo–que chegou a ser publicado no jornal para o qual trabalhei.

E hoje cedinho, quando olhei para os fios ainda sem esperança de sorrir…  a coruja estava lá! Então, dessa coincidência, me veio a ideia de publicar a crônica neste blog. Espero que gostem da viagem!

Ponto.

A Cidade Por um Fio

Para mim soa estranho prestar este depoimento a um jornal, mas a verdade é que não encontrei outra solução senão esta para expressar toda a angústia por que tenho passado nos últimos anos, onde moro. Digo que esta idéia me assusta pelo simples fato de que por mim passam, diariamente, milhares de pessoas que nem ao menos sabem que eu existo e que constantemente as observo atenciosamente com meus grandes olhos—que, modéstia à parte, são de fazer inveja a qualquer ser humano.

Pessoas, essas, que devem ler este jornal e que a partir de hoje devem passar a reparar melhor em mim, que sou facilmente encontrada nos fios elétricos de uma das principais alças de acesso ao Anel Viário, a Florestan Fernandes–saindo do Vidoca em direção ao centro.

Estou ali há muito tempo e, apesar de curtir mais a noite, eu enxergo bem melhor de dia—característica da espécie, afinal… eu sou uma coruja! O problema é que é justamente de dia que vejo muitas coisas que preferia não ver. E eu as explico já.

 Meu ninho foi feito em um terreno ao lado do poste que sustenta os fios em que passo maior parte do dia. Ali me estabeleci há alguns anos e pude observar uma série de novas construções destruindo o pouco de verde que restava por esses lados. Agora, meu ninho está sendo ameaçado por grandes tratores que chegaram sem pedir licença.

Estas mudanças demonstram o quanto São José tem crescido nos últimos anos e isso me enche o peito de orgulho. Mas meu orgulho é cauteloso.  Para abrir novas avenidas, por exemplo, casas devem ser desocupadas e destruídas, como meu ninho também será. Junto com eles, uma vida inteira, lembranças, suor e perspectivas.

De fato, a cidade deve evoluir… mas não falam tanto em Meio Ambiente e sustentabilidade hoje em dia? Pois então que sejam colocados em prática todos os conceitos aplicáveis aos grandes centros urbanos. Esses tratores…

Sei que milhares* de carros passam diariamente pelo trecho do trânsito que observo todos os dias em um ângulo de 360 graus. Ah… mas não era assim tão cheio quando escolhi esse cantinho para ficar, há mais de cinco anos. Eu me lembro bem que eu respirava melhor e tinha mais sossego naqueles tempos.

A minha vista também era bem mais privilegiada. Não era tão comprometida por espigões construídos, que hoje me impedem de enxergar boa parte do banhado. E quando me dei conta, sem querer havia me tornado uma voyeur tendo à minha frente a rotina dos condôminos que vivem dentro daquelas centenas de janelinhas. Mas fazer o quê? Se não os vejo tenho que me isolar cada vez mais em meu ninho, me afundando em solidão, na tentativa de manter a minha ilusória privacidade.

Pra não dizer que vivo sozinha, às vezes divido o meu fio elétrico com outras duas corujas, mas quem me observa sabe que isso é raro. Na maioria das vezes fico aqui, sozinha, pensando o que cada uma dessas milhares de pessoas que passam de carro no Anel Viário têm para fazer com tanta urgência. Pressa, essa, que causa tantos acidentes e moléstias da modernidade, como o stress.  

E essa minha angústia é tanta, que até eu já me sinto cansada. Apavora-me a idéia de que, se a mata inteira já virou cidade, eu mesmo já esteja virando uma urbanóide. É o preço do progresso, caro assim.

Por Isabela Rosemback

* No texto publicado no jornal tinha o dado cedido pela Secretaria de Transportes. Vou procurá-lo e atualizar.

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Cotidilema

A gente tem mania de falar de outras gentes
Quando quer fugir da própria mente  
A gente mente, vira indigente   
Desconhece a si própria        
Por reincidentes minutos pungentes

A gente usa as gentes mudas, estáticas    
Como escudos pra manter a própria face intacta       
Mas por dentro a derme inflama        
E a carapuça veste a vazia carcaça       
Por onde se propaga a coisa falsa

A gente é coisica de nada        
Um ser insignificante diante das gentes      
E as gentes não se entendem        
Porque moldadas em símbolos,      
Por mais que pareçam inteligíveis

A gente é ser flutuante       
Alicerçada no vácuo das ideias vagas       
Sobre tudo e contra todos      
Porque é várias, quando cada uma

A gente precisa das gentes            
Porque precisa ser plural    
Mesmo que a rima não se faça presente

Por Isabela Rosemback

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