Arquivo da tag: crônica

Calma, moça…

A semana pareceu-me duas, mas foi uma só. Entre lutos, festas, e muito trabalho novo, não tive tempo nem de pensar em mim ou mesmo em tudo o que está acontecendo com as mudanças que escolhi para a minha vida, ainda sem tantas definições. “Eu acordo e durmo falando com você”, disse a nova cliente, sem mentir. Acordar tem sido um salto da cama, com ideias já fervilhando. Um dia de efêmera despedida, dois dias de viagens, outros de muita agitação por aqui, mas a mente nunca em descanso. Nem parece que até terça eu estava sentada naquela bancada, onde tudo é calmo e a gente engorda sorrindo. A ficha ainda não caiu, não teve espaço pra isso. Nem mesmo o luto figurado vivido na semana pôde ser assimilado –e muito menos digerido, o que certamente demandará mais tempo e empenho de minha parte.
O contexto todo se justifica porque, abandonando a calmaria para viver na correria, entrei em um estacionamento de supermercado ao final da última semana ainda pilhada, pensando nas mil coisas que povoavam a minha cabeça naquele momento, e, ao avistar uma vaga e perceber que um casal caminhava em minha direção a alguns passos dela, me apressei a embicar o carro para estacionar de ré em tempo mínimo, a fim de não segurar os pedestres. Os bracinhos multiplicavam-se mudando a marcha e fazendo manobras estapeando a direção –um desespero só! Foi aí que ouvi, quando olhava para o lado oposto ao da voz:
— Calma, moça! Sem pressa… Pode estacionar tranquila, não tem problema.
A sensação foi a de como se tivesse tomado um relaxante muscular, daqueles que nos deixam grogues e esparramados no sofá. Respirei aliviada e senti um amarguinho me torcer a goela. Naquele instante anestesiado parece que retomei a consciência. Eu estava indo para o descanso, obstinada a comprar uma caixinha de cerveja para dividir com a minha irmã, em um pedido de trégua à turbulência, mas ainda agia no piloto automático acima da velocidade média permitida.
Voltei-me àquela senhora com um olhar semelhante ao de um vira-lata que recebe um afago ao invés do chute esperado. Era uma mulher de fios brancos, longa trança e marido ao lado, e que sinalizava com a cabeça uma amigável autorização: “Pode demorar, filha. Não se apresse”, numa tradução livre de sua mímica afirmativa.
Ao entrar na vaga e ao ver a paciente mulher passar em frente ao carro, abri o vidro eufórica e gritei o obrigada mais agradecido da minha semana. Duas vezes. Ela continuou andando naquele corredor de veículos, empurrando suavemente o seu carrinho. “Obrigada”, repeti para nós duas, mesmo ela a perder de vista. Tardei a sair do carro e circulei vagarosa por entre as baias do comércio.
Numa semana em que a morte anunciada do respeito me espetou o ouvido e me alterou os batimentos cardíacos e o tom de voz, essa gentileza tão aparentemente ingênua me fez pensar que o mundo não é assim tão ingrato e individualista como vinha sendo pintado à minha frente nos últimos dias. E a voz dessa senhora, tão incrivelmente colocada em meu caminho, no fundo soou-me como se uma manifestação externa de um desejo propriamente meu.
Escrevo para agradecer novamente a ela por me permitir parar por alguns minutos, em meio ao fluxo, para pensar sobre o que de fato me move. Também por sua permissão para que eu pudesse ocupar um novo lugar sem toda aquela pressão que promove a cegueira e a deformação. Quisera eu poder fazer o mesmo e, portanto, poder dizer “Calma, sem pressa. Ponha-se no seu lugar”. Feito isso, igualmente passaria pelo corredor arrastando a minha bagagem, sem precisar olhar para trás. O problema é que ando meio rouca e alguns motoristas têm demonstrado certa surdez.

Por Isabela Rosemback

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Como um cometa!

Olá, letreiros!

Para inaugurar este blog, um texto em homenagem ao meu falecido avô.

Uma crônica escrita em lágrimas, naquele triste setembro de 2009.

Sejam bem-vindos!

Ponto.


Crônica

O ASTRONAUTA

Uma rosa dada pelo pai irrompe o descontrole: o astronauta da minha vida, guia de tantos universos, segue sua jornada. Ele, estrela maior de mim.

A poltrona já não ocupa o mesmo lugar. Está vazia, bem como o peito daquela que, por 51 anos, esteve ao lado de quem passou os últimos dias de vida sentado ali. Paulo Wanderley Affonso Ferreira não era apenas um nome forte e extenso. No glossário da minha vida, era sinônimo de irreverência, ingenuidade, simpática teimosia e muito amor.

Ir ao Rio de Janeiro nos últimos finais de semana, para mim, foi sufocante. Saber que não iria mais ser recepcionada pelo grito rouco de um avô ansioso para rever a neta, esta ainda mais ansiosa para revê-lo, me fechava a garganta. Os olhos ardiam.

Vovô Paulo não era foguete, nem a jato—como ele sempre fazia questão de nos lembrar toda vez que o apressávamos para alguma coisa—, mas foi um excelente tripulante da aeronave que conduziu a minha família para o presente.

Com ele, entre tantas outras lições de vida, aprendi a ouvir. Nas tardes de domingo, no período em que morou em São José dos Campos, me dedicava a escutar suas histórias por longas horas, mesmo que muitas vezes elas não parecessem interessantes a uma criança.

Vovô falava de estepes e marcas de carros, sobre a briga entre as empresas de tabaco, contava episódios de Jornada ou Guerra nas Estrelas e aproveitava para criticar apresentadores de televisão. Mesmo assim, eu não saía do lugar. Tal encantamento pode parecer estranho, mas não para mim. Sempre admirei o modo como o pensamento dele ultrapassava as barreiras do óbvio e, tantas vezes, alcançava a beleza do fantástico.

Nesta hora percebo como a morte de alguém tão próximo nos dá acesso imediato a tantas lembranças ocultas e seletivas, como se estas fossem slides que apenas aguardassem o momento exato para serem projetados em nossa memória.

No primeiro deles, um homem forte e sorridente, de bigodes fartos e acinzentados, olha para mim com um carinho bem delimitado pelos olhos tensionados. Impossível não lhe sorrir de volta, com a cabeça um pouco inclinada pelo peso da saudade.

Lembro de quando eu e meu primo Paulo Victor nos distraíamos beliscando-lhe os largos quadris dando sequência a uma fuga abafada em risadas, enquanto ele se incomodava com a brincadeira por tantas vezes repetida. Nós dois, com menos de 10 anos de idade, ainda nem nos dávamos conta de que um dia essa companhia nos seria tão dolorosamente subtraída.

Na sequência, são projetadas imagens de quando matávamos, com um tapinha, o caranguejo ligeiro que vovô fazia com as mãos. Depois, outras dele carinhosamente olhando para meus pés e dizendo “pezinho de pão-doce” ou “dedão de medalhinha”… impossível, também, não lembrar do dia em que o levei ao cinema, já com a idade mais avançada, para ver o episódio 2 do Star Wars. Foi mais um dia para guardar na memória, cheio de confusões e bons momentos passados ao lado dele.

Agora, na casa de minha avó, não consigo deixar o tapete ou a toalha de mesa franzidos. Se vivo, vovô interromperia uma conversa e diria para alguém ajeitar os panos, porque ele gostava de tudo certinho–nem que fosse para arrastar um objeto um pouquinho para a frente e voltá-lo, logo após, ao mesmo lugar que ocupava. “Vovô mexe-mexe”, apelidou-o minha priminha. “Sapecão!”, dizia meu pai.

A figura dos avós, quando tão presente em nossas vidas, nos dá um sentido mais amplo de família.  E um dos grandes momentos que passei com a minha, a que tanto amo, aconteceu em setembro de 2008, quando celebramos os 50 anos de casamento de vovô Paulo e de minha avó, Hebe Alves Affonso Ferreira (outro nome repleto de significados no meu dicionário pessoal).

Mesmo cansado, em razão do fraco corpo que ainda sustentava, o homenageado deste texto deixava transparecer toda a alegria que sentia em poder estar ali, junto a todos, comemorando cinco décadas ao lado do grande amor de sua vida. Um amor tão intenso que, até o último dia em que esteve consciente, ele chamava por “neném” para lhe fazer companhia e, para ela, sorria com doçura.

A dor física que ele sentia hoje se transportou, em forma de emoção, ao peito de minha avó–que ainda escuta, com frequência, os chamados silenciosos do homem que a conquistou montado em uma lambreta que nunca existiu.

Difícil apagar a imagem dele da poltrona do quarto, que teve de ser removida. Difícil, a uma semana de completarem 51 anos de casados, deixar que subissem os créditos do filme dirigido e protagonizado pelos dois até aquele domingo. Mas foi preciso aceitar.

No dia 30 de agosto, aos 79 anos, Paulo Wanderley Affonso Ferreira pegou carona em um cometa para olhar, lá de cima, pela esposa que tanto o amou e foi amada, pelas duas filhas [Dóris e Márcia], que sempre lhe dedicaram tanto amor e atenção, e pelos netos Roberta, Isabela, Paulo Victor e Cristina, que sem dúvida alguma se lembrarão sempre do carinho que receberam dele no período da vida em que esteve presente.

Por Isabela Rosemback

5 Comentários

Arquivado em Uncategorized