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Mais vale pouco

Não que minhas mãos se fizessem duras, mas também meu riso estava longe de estar mole. Bem ficava na solidão do meu cúmplice relacionamento, longe daquela multidão que preferia esvaziar o salão nos últimos minutos do show para evitar, assim, transtornos para aquele efêmero momento de suas vidinhas (de cada uma delas), soltando um velado “foda-se” para a música que estava sendo exposta. E o cantor ali, emudecido em seu raivoso cantorinhar autoral —quanta perda de saliva eu calculei! A lealdade dos fãs apenas no conforto, reduzindo a apresentação a um fictício espetáculo do absurdo. Um na mão vale mais do que vários voando era expressão que nada tinha a ver com aquilo, mas que pareceu fazer sentido quando tudo parecia ter ido para os ares, menos o amor romântico. Uma pieguice, ri mais tarde, mas você há de concordar que de mau gosto o entorno está cheio. É que no silêncio da casa os sons são menos opacos, você pode ouvi-los claramente a cada palavra que te acerta sem pudor ou regra. É nelas que você se reconhece sem precisar de um escudo refletor. Afinal, esse tipo de dialética não tem fórmulas ou formas, ou gêneros, ou hora marcada, muito menos respeita os seus horários e agenda, apenas vem e vai como num sopro de lucidez ou desespero. Sem maquiagens corretivas, sem teatrinho improvisado que conforta a realidade confrontada. Punhos semi-cerrados para darem um cruzado imaginário nas adversidades escolhidas, e o riso contido para não debochar daquilo que nunca me pareceu engraçado. Apenas as minhas mãos foram impedidas do relaxamento e do ataque, e meus lábios contiveram-se em suas contrações ou afrouxamentos. Todos os membros permanecem alertas, mas em paz. A vida mostra-se outra quando menos extremista, ainda que permaneçamos fiéis ao que nos move e ao que mantém os nossos pés no chão.

 

"Two of us riding nowhere... in the sun"

“Two of us riding nowhere… in the sun”

 

Por Isabela Rosemback

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