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Relações Silenciosas

“Evidentemente que os outros não me conheciam; mas eu… eu os conheço. Conheço-os até muito bem” — Dostoiévski, em “Noites Brancas”

Ilustração: Ronny Santos

As rodas que levavam o anônimo ao destino de que não se sabe, com a enorme caixa de isopor à frente do guidão, eram as mesmas que cruzavam, todas as manhãs, com as rodas de meu carro.
Na curvinha da avenida, quando eu estava prestes a fazer a primeira parada do dia, antes da minha estacionada cotidiana, lá estava ele—sempre pedalando o peso da caixa de poucos gramas, aparentemente, mas que também nunca se soube o que guardava.
Toda vez em que o via, eu olhava para o relógio do painel do meu carro e comentava: “Hoje estamos atrasados”, ou “hoje ele está atrasado”, ou outras frases que, em geral, comparavam o nosso horário ao dele.
Deu-se que um dia reparamos nele na curva. No seguinte, “olha ele de novo!”. Assim foi que nossos encontros se tornaram rotina. Quando não o víamos, logo entendíamos: alguma das partes havia se adiantado—ou retardado.
Tudo era uma questão de coordenada. Se nossas rodas se encontrassem na pista sentido centro, os dois no carro tínhamos minutos de folga. Caso elas se entreolhassem durante a curva, éramos os três pontuais. Na pista sentido bairro, o cruzamento significava atraso. Claro que com variantes, porque tudo era medido a partir do horário acusado no relógio digital.
Tornamo-nos, assim, conhecidos silenciosos. Sempre me questionava se ele chegava a reparar que aquele carro-bolinha branco o cumprimentava todas as manhãs, da mesma maneira que nós recebíamos o seu “bom dia”.
Outra noite, dessas que deixam de ser caladas em razão do estridente som dos nossos debates, falei sobre isso aos amigos.
É o mesmo caso do motorista do ônibus do qual eu havia deixado de ser passageira há três anos. Ao subir novamente no coletivo, nos cumprimentamos com a euforia de quem não se via há tempos, mas se sentia contente em rever o outro.

Ilustração: Ronny Santos

É o mesmo caso dos vendedores das barraquinhas nas ruas em que você transita. É o caso do caixa do restaurante em que você almoça nos dias de trabalho. Ou das pessoas que frequentam o mesmo bar ou a mesma academia aos quais costuma ir.

Uma hora você acena a cabeça ou puxa o cantinho do lábio ao outro, e se sente bem por isso—mesmo parecendo não fazer o menor sentido. Pelo menos eu sou assim, ao mesmo tempo em que mantenho relacionamentos mudos (por opção) com pessoas que conheço bem.
No livro “Noites Brancas”, de Fiódor Dostoiévski, o protagonista é um homem solitário que cria laços com prédios e casas que conversam com ele nos trajetos alternados que faz no dia-a-dia. De longe, ele observa as pessoas e é como se as conhecesse.
Para mim, o anônimo joseense (da bicicleta) é como o senhor que o personagem do livro sempre encontra no mesmo restaurante.
“Estou certo de que, quando ele não me encontrava naquela hora, como de costume, devia sentir uma certa contrariedade”, escreve o autor russo à página 12 da versão editada pela L&PM Pocket.
Esses relacionamentos silenciosos afetam o personagem de tal maneira, que ele chega a se sentir ofendido quando todos deixam a cidade nas férias.
“Era como se de um momento para o outro todos tivessem se esquecido de mim, como se, no fundo, eu fosse completamente estranho para todos”, diz à página 16.
Mas muita gente não enxerga o outro. Pode passar anos circulando nos mesmos lugares e vendo as mesmas pessoas, que não vai se sentir nem um pouco intrigada com a sua presença.
Eu sou o contrário. Intrigo-me com os que não conheço, sempre me intriguei. Mas muitas vezes perco o interesse por aqueles que descubro terem sido um desprazer conhecer. Eu sorrio para as pessoas na rua, mas se a pessoa próxima não merece o meu sorriso, eu me fecho.
E essa ideia me faz lembrar de trecho que li esses dias: “Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só”.
É, acho que é só.

Ilustração: Ronny Santos

Por Isabela Rosemback

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