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Alô, (meu) Houaiss!

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Reprodução da página 338 da 2ª edição (revista e revisada) do míni Houaiss, ano 2004 ::: Editora Objetiva

Quedê a felicidade? Quedê a fêmea, com suas feminices e feminismos? Quedê o fêmur da fera felina? E o fedor, como defines? A febre, a fecundação? Quedê o feijão nosso de cada dia, a brasileira feijoada? O feno do cavalo, o felpudo casaco para os dias gélidos? A fenda na pele, que não cicatriza? Fenece? O gosto amargo de fel, de Gonzaguinha? Quedê o feio para se impor ao belo? O fenômeno e o feitiço, em contraponto ao previsível, ao racional? A petulância do fedelho? A fécula para o meu nhoque? A fechadura para trancar segredos? És, agora, o feitor das palavras? Mas quedê, que não existes nas próprias páginas? Ah, mas que fementido glossário!

Por Isabela Rosemback

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Morte Adjetivada da Roda

Naquela sala burocrática onde muito entrava e quase nada saía —uma espécie de fortaleza corporativa à prova de obreiros—, Zé pisou mareado pela liquidez do solo que o embalava com ressaca causada não só pela revolta dos aquíferos, mas também pela inquietude da moral, embora ficasse confuso sobre o significado daquilo: que moral tinha ele, afinal? Zé descalço e duramente ornamentado. Passou pelo vão da porca porta já atordoado pela luta que o impulsionara até aquele fétido fundo de cômodo, que mais parecia um longo corredor de espinhosas paredes ­­­­­­sedentas por lhe espetarem a pele em busca de alimento. O atalho vencido levava o avatar à fase final do jogo, ali diante de seus opositores para o derradeiro e enfadonho enfrentamento. Assento não tinha, obviamente. Pelo menos não para ele —o maldotado e errabundo peão descalço, sempre trajado de rota armadura de ferro. Surfista cearense na Praia do Futuro, equilibrando-se naquele chão movediço com destreza e contrariedade.

Cercado pelas pilhas de atrasos empapelados que separavam o servo do servo –e esta era outra ideia que lhe levava a coçar o cocuruto, Como o mesmo podia apresentar-se como tão diferente? (e sempre, em sua feliz ignorância, acabava sorrindo irônico sem nem cutucar resposta)—, o oponente tentava ser elegante sem sucesso (era algo que não lhe cabia, tinha mau caimento). O burocrata, dono de nada a não ser aquela ilusória crença no poder, usava uns trapos fingindo-se de finos, mas que denunciavam a sua provável doença de nome pomposo (hiper…), a começar pelas enormes poças absorvidas pela camisa nas odoradas suvaqueiras peludas. Duas enormes pizzas, reparava o alvo, chegando a pensar que talvez fosse esta a razão da correnteza indomada sob os seus pés (por bem, o nojo repentino logo expulsou a imagem de suas ideias com rispidez). No peixeiro administrativo, aquela frequente expressão facial de quem não sabe a que veio, bem como aquelas pálpebras pesadas de morosidade e preguiça, faziam-se desconcertantes. O senhor das cifras e dos nomes catalogados era pouco consciente de seu caráter substituível, mas deliciava-se com a substituição daqueles que organizava por ordem alfabética em seus escaninhos. Zé sabia bem do alheio prazer sórdido —o rei das secreções era também previsível— e tratou de desviar o olhar daquele rosto orvalhado e sádico que fitava a ele e a seus documentos, recém-entregues, com gula demoníaca.

Bastou esticar um pouco a vista para além do incômodo, que uma segunda pessoa lhe surgiu em foco. A presença vestia um tailleur que certamente havia tirado do armário da filha (só essa versão parecia fazer sentido ao crítico Zé daquele momento) e mumificou-se desconfortável a espreitar os acontecimentos. Apenas mexia os olhos pretos e saltados em direção a um servo e a outro —ela também enquadrada na categoria— em sequência sincopada. Por sua vez o pobre Zé, então prestes a grafar o final no caderno de pontos, não assinou nada, na primeira pressionada, por se distrair com a dramática súplica de um botão que compunha o encolhido terninho claro da dama empalhada: a casa à altura do ventre, em que a peça alojara-se, era repuxada para o lado contrário àquele em que ela estava costurada. A esfera enforcada ameaçava romper com as amarras, e Zé temia a fratura das linhas no instante em que reparou em outro detalhe no boneco de cera de anexos olhos vivos: finalmente folgado, graças a uma bem arejada fresta entre os lados de tecido esticados em repulsão, o umbigo da senhora embalsamada fazia graça ao observador, que teve de se conter para não rir de tão decadente performance em hora inoportuna como aquela.

Assinou as folhas todas e despediu-se, aquele mesmo homem, naquele mesmo dia, pensando nos próximos blocos de cimento que teria de carregar em obras posteriores –talvez fossem só tijolos, o tempo diria. E já na área externa do abafado centro de negócios, o remanso alcançou seus pés. Sentindo o refresco entre os dedos, Zé despiu-se da pesada vestimenta que o sufocava e enfim entregou-se ao banho de calmaria daquelas águas. O botão em crise já podia arrebentar à vontade, não se importava. Estava longe.

Por Isabela Rosemback

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Mais vale pouco

Não que minhas mãos se fizessem duras, mas também meu riso estava longe de estar mole. Bem ficava na solidão do meu cúmplice relacionamento, longe daquela multidão que preferia esvaziar o salão nos últimos minutos do show para evitar, assim, transtornos para aquele efêmero momento de suas vidinhas (de cada uma delas), soltando um velado “foda-se” para a música que estava sendo exposta. E o cantor ali, emudecido em seu raivoso cantorinhar autoral —quanta perda de saliva eu calculei! A lealdade dos fãs apenas no conforto, reduzindo a apresentação a um fictício espetáculo do absurdo. Um na mão vale mais do que vários voando era expressão que nada tinha a ver com aquilo, mas que pareceu fazer sentido quando tudo parecia ter ido para os ares, menos o amor romântico. Uma pieguice, ri mais tarde, mas você há de concordar que de mau gosto o entorno está cheio. É que no silêncio da casa os sons são menos opacos, você pode ouvi-los claramente a cada palavra que te acerta sem pudor ou regra. É nelas que você se reconhece sem precisar de um escudo refletor. Afinal, esse tipo de dialética não tem fórmulas ou formas, ou gêneros, ou hora marcada, muito menos respeita os seus horários e agenda, apenas vem e vai como num sopro de lucidez ou desespero. Sem maquiagens corretivas, sem teatrinho improvisado que conforta a realidade confrontada. Punhos semi-cerrados para darem um cruzado imaginário nas adversidades escolhidas, e o riso contido para não debochar daquilo que nunca me pareceu engraçado. Apenas as minhas mãos foram impedidas do relaxamento e do ataque, e meus lábios contiveram-se em suas contrações ou afrouxamentos. Todos os membros permanecem alertas, mas em paz. A vida mostra-se outra quando menos extremista, ainda que permaneçamos fiéis ao que nos move e ao que mantém os nossos pés no chão.

 

"Two of us riding nowhere... in the sun"

“Two of us riding nowhere… in the sun”

 

Por Isabela Rosemback

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Coisas assim

De perninhas tão finas, que seria impossível torcê-las, e um marrom desbotado de camuflar-se pelas rachaduras dos galhos, escolheu justo os meus branco dedo e fluorescente braço para aventurar-se pela manhã. Não foi bem um susto, porque eu já o fitava desde que cheguei aqui, nesta quarta-feira. No teclado preto em relevo, me chamou a atenção a escolha pelos caminhos mais difíceis, escalando o 1 e o Q, desequilibrando-se entre o A e o W, desesperado para sair do Z e sentindo firmeza na longa tecla de espaço. As anteninhas trêmulas, e eu aguardando que ele completasse a lenta e desnorteada maratona para poder voltar à minha escrita. Bastou uma distração e lá estava ele em meu indicador, interrompendo novamente a minha corrente de ideias. Ergui a mão com o dedo em riste para bem pertinho do meu rosto e, conforme ele apalpava a minha pele, tão leve que nem cócegas eu sentia, fui relaxando as articulações. Fiquei ali a reparar em seus movimentos e acabei criando um vínculo imaginário com ele, meu novo amigo sem nome. Chamei-o joaninho, pela obviedade de sua forma, e achei extremamente ridículo e de mau gosto. Pensei tê-lo visto na mesma hora franzir a fronte, que tinha apenas três pontinhas negras sinalizando que ele deveria estar me entendendo, mesmo que em um provável mosaico de cores estranhas. Quis acreditar assim, diante da nova companhia.  Enroscou-se em minha unha e temi por aquelas frágeis patinhas a se debaterem entre a ponta do dedo e a estrutura vermelha. Salvei-o do perigo e voltei aos textos, ele (será que era ‘ele’, mesmo? Ele inseto, sim. Meu amigo) andando por toda a vastidão daquela enorme mesa que tinha a desbravar. Alguns minutos e o pequeno novamente em mim, agora no braço. Desisti da tarefa que penava em tentar completar e me rendi à carência daquele bicho. Pedi que ficasse à vontade em sua caminhada em direção à minha mão, e ele cambaleava. Foi então que senti uma dor ardida, daquelas que contraem o corpo e chegam ao ouvido, bem ali, onde ele estava. Não sei se foi trairagem ou se apenas se agarrou em mim. No reflexo, xinguei alto e ele foi parar longe com apenas um peteleco. Terminava ali todo o romantismo criado em minha cabeça, e eu ainda sentindo a perda e me recriminando pelo ato impensado. Bom foi que ele voltou ao meu campo de visão em pouco tempo e, fingindo-se de morto, me acompanhou quietinho pelo resto da tarde em cima do caderno –em cumplicidade, fingi que acreditava em seu óbito. Ao final do dia, levantou-se meio tonto e pegou a estrada, ainda em tempo de eu dizer adeus e confidenciar que foi boa a rápida parceria.

Ele em meu braço

Ele em meu braço

Por Isabela Rosemback

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Calma, moça…

A semana pareceu-me duas, mas foi uma só. Entre lutos, festas, e muito trabalho novo, não tive tempo nem de pensar em mim ou mesmo em tudo o que está acontecendo com as mudanças que escolhi para a minha vida, ainda sem tantas definições. “Eu acordo e durmo falando com você”, disse a nova cliente, sem mentir. Acordar tem sido um salto da cama, com ideias já fervilhando. Um dia de efêmera despedida, dois dias de viagens, outros de muita agitação por aqui, mas a mente nunca em descanso. Nem parece que até terça eu estava sentada naquela bancada, onde tudo é calmo e a gente engorda sorrindo. A ficha ainda não caiu, não teve espaço pra isso. Nem mesmo o luto figurado vivido na semana pôde ser assimilado –e muito menos digerido, o que certamente demandará mais tempo e empenho de minha parte.
O contexto todo se justifica porque, abandonando a calmaria para viver na correria, entrei em um estacionamento de supermercado ao final da última semana ainda pilhada, pensando nas mil coisas que povoavam a minha cabeça naquele momento, e, ao avistar uma vaga e perceber que um casal caminhava em minha direção a alguns passos dela, me apressei a embicar o carro para estacionar de ré em tempo mínimo, a fim de não segurar os pedestres. Os bracinhos multiplicavam-se mudando a marcha e fazendo manobras estapeando a direção –um desespero só! Foi aí que ouvi, quando olhava para o lado oposto ao da voz:
— Calma, moça! Sem pressa… Pode estacionar tranquila, não tem problema.
A sensação foi a de como se tivesse tomado um relaxante muscular, daqueles que nos deixam grogues e esparramados no sofá. Respirei aliviada e senti um amarguinho me torcer a goela. Naquele instante anestesiado parece que retomei a consciência. Eu estava indo para o descanso, obstinada a comprar uma caixinha de cerveja para dividir com a minha irmã, em um pedido de trégua à turbulência, mas ainda agia no piloto automático acima da velocidade média permitida.
Voltei-me àquela senhora com um olhar semelhante ao de um vira-lata que recebe um afago ao invés do chute esperado. Era uma mulher de fios brancos, longa trança e marido ao lado, e que sinalizava com a cabeça uma amigável autorização: “Pode demorar, filha. Não se apresse”, numa tradução livre de sua mímica afirmativa.
Ao entrar na vaga e ao ver a paciente mulher passar em frente ao carro, abri o vidro eufórica e gritei o obrigada mais agradecido da minha semana. Duas vezes. Ela continuou andando naquele corredor de veículos, empurrando suavemente o seu carrinho. “Obrigada”, repeti para nós duas, mesmo ela a perder de vista. Tardei a sair do carro e circulei vagarosa por entre as baias do comércio.
Numa semana em que a morte anunciada do respeito me espetou o ouvido e me alterou os batimentos cardíacos e o tom de voz, essa gentileza tão aparentemente ingênua me fez pensar que o mundo não é assim tão ingrato e individualista como vinha sendo pintado à minha frente nos últimos dias. E a voz dessa senhora, tão incrivelmente colocada em meu caminho, no fundo soou-me como se uma manifestação externa de um desejo propriamente meu.
Escrevo para agradecer novamente a ela por me permitir parar por alguns minutos, em meio ao fluxo, para pensar sobre o que de fato me move. Também por sua permissão para que eu pudesse ocupar um novo lugar sem toda aquela pressão que promove a cegueira e a deformação. Quisera eu poder fazer o mesmo e, portanto, poder dizer “Calma, sem pressa. Ponha-se no seu lugar”. Feito isso, igualmente passaria pelo corredor arrastando a minha bagagem, sem precisar olhar para trás. O problema é que ando meio rouca e alguns motoristas têm demonstrado certa surdez.

Por Isabela Rosemback

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Step Ball Change

Se os pensamentos fossem tão ágeis como aqueles pés irlandeses a balançar as tamancas… Ah, se fossem! Não precisaria ser tão agressivo em seu sapatear. Alcançaria extremos do palco com leveza admirável, fixando a plateia ao solo e unindo cada par de mãos em sonoras palmas de mesura. Mas os passos duros em sequência provocaram o efeito reverso, e um barulho que se assemelhava ao de folhas secas a se chacoalharem por todos os setores da árvore pôde ser ouvido até mesmo da coxia. Tentava entretê-los, ali, com suas plantas dos pés cada vez mais ruidosas pelo atrito voraz com o picadeiro sobre o qual persistia em movimentar-se, em uma interação imaginária com sua Companhia. Desconcertante era que, por mais que se debatesse em sua exibição técnica, o pobre dançarino não saía do lugar –e nem os demais bailarinos avançavam os limites da cortina.  Suava ansioso e concentrado, no centro daquele tablado em que se transformara. As folhas a revolverem-se, todas, em seus galhos numerados e desconfortáveis. Aguardavam clementes pelo ato final, a partir do qual poderiam voltar à mansidão das solas macias e emborrachadas que, silentes, caminham a distribuir votos de um bom dia (ou noite) nas ruas por que passam. Os pés do profissional, a cada minuto mais ávidos por baterem o recorde de golpes da chapa de ferro sobre a plataforma, produziram, porém, som tão ensurdecedor que o escape pelas saídas de emergência do teatro tornou-se inevitável a parte da folhagem. A partir daí, tudo é lenda. Dizem que o sapateador continua lá, pele e osso, dançando insistente em sua posição, ainda que acredite atravessar o palco em momentos de delírio. Algumas folhas, também, permaneceriam trêmulas em seus galhos numerados e desconfortáveis, prisioneiras de um rodamoinho que as cercaria ao menor sinal de fuga.

Por Isabela Rosemback

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Amabilidade gratuita


A abordagem direta foi intimidadora,
mas o oculto do batom continua me arrancando sorrisos.

Os braços abertos deram-me um susto, ‘de pronto’, quando me surpreenderam enquanto eu andava olhando para a avenida. Integravam o corpo afoito de um rapaz de cabelos espetados por gel e dono de um sorriso espichado para as laterais em uma espécie de paralisia dos lábios que, entreabertos, ainda conseguiam insistir por um abraço. A boca, as mãos. Os olhos arregalados. Era como se o visse em câmera lenta, a voz alterada pela rotação retardada. “Um aaabraaaaçoooo…”, ainda com os dedos afastados e esticados, movimentando a cintura para que o tronco descaísse brevemente de um lado e de outro feito um ponteiro de relógio enroscado entre segundos. Balançava sem sair do lugar, a um passo de mim, mecanicamente alegre e visivelmente inseguro. Eu ali, hesitante.

Uma risadinha de quem queria se livrar logo daquilo deu o impulso das desculpas em minha garganta e jogou meus pés para a faixa de pedestres, acompanhados de minha cunhada de 12 anos —em quem já tinha dado vários abraços naquela manhã de passeio em São Paulo. Ela me olhou com cara de quem não entendia nada. Era a turma do abraço grátis, expliquei, que implorava por um aperto de corpos em uma interação de pura pressão e constrangimento.

Talvez não tenha sido um bom momento daquele garoto e nem meu. Duas semanas antes, algo ingênuo e mais interessante havia me ocorrido. No vidro do passageiro do carro, a marca de um beijo selado em batom rosa passou a me acompanhar nos meus caminhos, em dias de convívio com a saudade do namorado, ausente de casa para trabalhar em outro canto do continente. Fixada do lado de fora da janela, a forma colorida me instigou de uma maneira infinitamente mais branda que o incisivo distribuidor de afetos gratuitos da avenida Paulista. Ela estava ali, simpática e inabalável, pedindo silenciosamente por um sorriso meu. E eu gargalhei, de forma infantil, ao descobri-la quando fui tirar o veículo da garagem. Admito que soltei outras risadas frouxas em todas as demais vezes que precisei olhar para o lado para me certificar de que poderia avançar à pista seguinte. Uma manifestação simples, mas acolhedora.

A marca que me beija todos os dias

Em um primeiro momento pensei que fosse obra de minha irmã, que me fez companhia entre goles de cerveja na madrugada anterior. Mas ela negou. O beijo era anônimo. Recapitulei que naquela noite, antes de ir para casa receber as visitas, parei no Sesc para assistir a um show e estacionei o carro na rua, ao lado de uma padaria. Dali, portanto, devo ter passado a cortar a escuridão transportando o símbolo que, discreto, dormiu à espera de reconhecimento. Não interessa se resultado de uma atitude bêbada e despretensiosa ou se de uma ação planejada para espalhar afeto. Para mim, a espontaneidade e o ineditismo daquela iniciativa terem me alegrado por dias, trazendo implícitas algumas reflexões, já valeram e bastaram.

Não faz uma semana, fui apresentada ao texto de um talentoso artista de rua do qual já havia assistido a depoimentos em vídeo. Ele falava de problemas familiares —união, filho, planos, desilusões amorosas…— e em certo momento narrou a  noite em que soube, pelo orelhão, que a mulher de sua vida iria mudar-se para longe em três dias levando no colo o seu descendente. As palavras seguintes dedicavam-se a descrever a forma como seu mundo desabou naquele instante, com o autor expondo seu choro copioso na rua. O que mais me chamou a atenção em todo o relato, entretanto, foi o dado de que, em meio a esse caos sentimental, ele foi erguido delicadamente da calçada por uma pessoa que o abraçou por tempo suficiente até que se acalmasse. “Não me lembro se homem ou se mulher”, escreveu antes de concluir que só então pôde voltar para casa, atenuado o seu desespero.

Diante dos fatos, reforço que o conforto ao próximo nunca me soou como algo que se forneça esperando recompensa. Tampouco o carinho gratuito carece de pedido, deve ser engessado ou pressupõe-se irrestrito (afinal, há uma privacidade a ser respeitada). Se eu não estivesse tão plena de amor naquela manhã, e se não me sentisse intimidada pela abordagem agressiva daquele rapaz de cabelos espetados, eu poderia ter recebido aquele aperto ansioso pela prática da boa ação sem que me despertasse a vontade instantânea de entrar na minha concha e logo balançar uma bandeirinha branca lá fora, esperando que me deixassem em paz com a minha família. Eu sorriria e agradeceria. E naquele momento, talvez, passasse por trás da gente alguém à procura de uma forma humanizada de aliviar as suas angústias, na esperança de ver algum sentido nisso que chamamos de vida. E provavelmente ele passaria despercebido –se não passou, enquanto eu me esquivava.

Isso tudo porque nesse mesmo espaço de convivência em que estamos inseridos, dia após dia, muito é uma delicada questão de sensibilidade. E se ela nos escapa por tantas vezes, ainda que nos empenhemos em recuperá-la, não há outro caminho que não o de persistirmos em sua prática até que ela nos confie permanência. Um primeiro exercício poderia ser o de observar.

Confesso que ainda não lavei o vidro do meu carro, pois não enxergo ali nenhuma sujeira. Mas estou certa de que ainda há muita poeira para ser retirada de outros meios que nos conduzem em nossas trajetórias. Camadas essas que, se não forem reduzidas, podem acabar manchando a lataria.

Por Isabela Rosemback

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