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Reencontro

Olá, letreiros!

O penúltimo post deste blog e os comentários trocados nele, com a jornalista Juliana Leite, me fizeram retornar ao texto que reproduzo logo abaixo, escrito por mim ao jornal Valeparaibano (de São José dos Campos) em fevereiro de 2009–data em que a morte de Hilda Hilst completou 5 anos.
Optei por republicar esse material porque é ele o resultado do contato que fiz com Mora Fuentes quando ele estava no hospital, como contei anteriormente. Além disso, esta é uma nova oportunidade de intercâmbio de ideias e de informações sobre a autora.
Ainda com o intuito de troca, aproveito para recomendá-los a leitura do texto sensível e atento que Juliana fez após uma visita à chácara Casa do Sol (http://migre.me/BdF8). 
Espero que gostem das viagens!

Ponto.

Ter Sido. Estar Sendo

A frase “o vermelho da vida”, criada pela escritora Hilda Hilst como um consolo entre amigos quando se desse a morte de um deles, há cinco anos foi repetida sem que tenha surtido efeito sobre o grupo–ainda amortecido pela perda da polêmica e sedutora literata, hoje considerada das mais importantes da língua portuguesa.

Na semana em que a passagem dela para o desconhecido faz aniversário (dia 4 de fevereiro), os amigos próximos relembram com carinho de uma senhora impulsiva, mas doce, e apaixonada pela vida, embora a questionasse tanto.

“Hilda foi uma poeta brilhante voltada para a experiência da vida. E ainda sinto muitas saudades dela”, disse Mora Fuentes, amigo da escritora desde 1968.

Mora é quem está à frente do Instituto Hilda Hilst, hoje certificado como organização civil de utilidade pública, que funciona na chácara em que ela vivia em Campinas–a Casa do Sol.

“Conheci a Hilda de uma maneira bem simbólica, porque ela cuidava da cachorrinha da minha irmã. Quando fui até a chácara pela primeira vez fiquei deslumbrado tanto por ela quanto pela casa, que era iluminada por lampiões, dava uma idéia de mosteiro. Ela nos recebeu muito bem, sempre foi uma ótima anfitriã, e era muito sedutora”, lembrou.

No ano seguinte ele se mudaria para a casa dela, dando início a uma forte amizade. “Era impossível não ficar amigo dela. Ela era incrível, cultíssima, e conversava sobre todos os assuntos. Quando a conheci repensei tudo o que já tinha escrito e comecei tudo do zero, porque percebi a importância da linguagem”, disse Fuentes, que também é escritor.

A literatura hilstiana transita por diferentes modalidades textuais, sempre levada por um fluxo metafórico de ideias, com ritmo diferenciado. As frases e os diálogos não se interrompem pela pontuação usual e as letras maiúsculas depois dos pontos são ignorados.

“Ela tem uma obra-prima tão importante quanto Guimarães Rosa e escreveu adiante do seu tempo. Muitos não a entendiam direito, mas hoje recebemos muitos jovens no instituto que se interessam e compreendem o que ela escrevia”, disse Fuentes.

QUEM ERA – Hilda Hilst nasceu em Jaú em 1930 e, na década de 1940, mudou-se para São Paulo. Nesta época escandalizou a sociedade por ter um comportamento avançado para a época. Andava sempre muito chique e fazia parte de grupos de intelectuais e personalidades da capital paulista.

Bonita e interessante, ela seduzia os homens com facilidade e não havia uma noite em que ela ficasse em casa. Mas na década de 1960 ela decide abandonar esse modo de vida e refugiar-se em uma chácara em Campinas, a que chama de Casa do Sol.

Lá, ela abandona os trajes sofisticados e adota um visual mais casual, apenas amarrando o cabelo com um elástico, para então se debruçar sobre a máquina de escrever e produzir novos textos. A casa era sempre bem frequentada, por pessoas sempre muito influentes, e era aberta a quem mais se mostrasse interessado em ouvir o que ela tinha a dizer.

O escritor e cineasta Yuri Vieira, 37 anos, chegou a morar dois anos na chácara, com Hilda, e reforça que ela era uma pessoa cativante, apesar da fama que ganhou por suas declarações polêmicas, por suas críticas diretas e por sua literatura composta por uma simbologia erotizada.

Todas as manhãs ela acordava e perguntava o que ele tinha sonhado, para dali começar um longo debate sobre o que esses sonhos poderiam significar. Suas colocações eram sempre muito embasadas.

Depois já abria uma garrafa de vinho do porto, começava a tomá-la, e tirava um cochilo. No almoço, gostava de comer primeiro a sobremesa e depois o prato principal.

“Morei com ela entre 1998 e 2000, época em que ela não escrevia mais. Ela estava numa fase em que apreciava ler a biografia dos autores que ela gostava. Lia de Freud, de Kafka, de Joyce. Dizia que escrevia muito bem quando estava apaixonada, mas que não se apaixonava mais por ninguém, ‘nem por um leão'”, disse.

Nos livros que escrevia, a escritora dava pistas sobre as grandes paixões do momento. Ela vivia intensamente para aquele sentimento e, o que mais produzia nessas fases, eram poemas–não importando se esse amor era correspondido ou não.

O escritor Mora Fuentes se recorda de que, quando Hilda começava a escrever um novo livro em prosa, todos já sabiam que a paixão dela já estava chegando ao fim.

Noveleira, ela torcia para que os capítulos do dia fossem interessantes e admirava o controle que os autores tinham sobre a trama. Quando as cenas não lhe agradavam, ia dormir mais cedo. Todos os dias, também, assistia a filmes e os criticava ou se emocionava com eles.

“Ela às vezes ficava tomando vinho e blasfemando Deus, que ela sempre questionou por não compreender como tanta coisa ruim acontecia na Terra. Mas quando eu ia dormir ela dizia: ‘Dorme com Deus. E vê se ora'”, riu Vieira.

O medo do desconhecido e da dor que a morte poderia causar a ela faziam com que ela temesse a hora da partida. Mas a chegada da velhice também a fazia, contraditoriamente, desejar que ela chegasse breve.

“Ela era muito intensa e gostava da vida de uma maneira que não fosse morna, mas sim vivida com intensidade. Mas a velhice e a falta de paixão que isso trouxe a ela, acabou fazendo com que ela morresse. Ela teve uma relação muito forte com a bebida por conta dessa constatação da idade avançada, mas quando morreu já tínhamos conseguido fazer com que ela parasse”, disse Fuentes.

MÚSICA – Ao final da vida dela, com a fala já debilitada em razão de uma isquemia, Hilda Hilst teve dez de seus poemas do livro “Júblio, Memória, Noviciado da Paixão” musicados pelo compositor popular Zeca Baleiro.

Baleiro contou que não acreditou quando recebeu uma ligação dela depois que ele havia lhe enviado um CD. A voz ao telefone era rouca e as palavras o fizeram rir e prometer uma visita à Casa do Sol.

“Ela me mandou uns poemas e quando bati os olhos na ‘Ode Descontínua’ percebi alguma música ali. Compus em três anos e propus a ela fazermos o disco. Ela achava que pela música ela chegaria a um público maior e dizia: ‘Literatura não dá camisa a ninguém. Quero ser rica, quero fazer sucesso’. Quem a conheceu sabe que era uma auto-ironia, um grande deboche com a atividade literária”, afirmou.

Por não haver uma métrica musical óbvia nos poemas de Hilda, Baleiro conta que o trabalho foi desafiador e que identificou algo de medieval nele.

 “Mas o Edu Lobo, que é um craque em musicar letras e poemas alheios disse que um compositor pode musicar qualquer poema, por mais complexo que ele seja. Concordo com ele, só é preciso respeitar a natureza do poema”, disse ele, que define Hilda Hilst como “uma figura única, passional, sanguínea. Uma poeta em tempo integral que deixou uma obra fabulosa, essencial”.

Por Isabela Rosemback

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Som Color

Olá, letreiros!

Um dia me perguntaram que cor tinha a minha voz. “Azul bebê”, respondi instintivamente. Achei engraçado… nunca havia pensado em dar cores a sons meus. A mim, eles pareciam ser sempre transparentes. Mas não, eles são coloridos! Foi inevitável que me debruçasse sobre essa ideia por mais tempo. Cheguei à desconfortante hipótese de que os de fora poderiam atribuir à minha fala tons mais sombrios que os que ouço—pois nunca nos escutamos da mesma maneira como os outros nos ouvem. Depois caí em associações: se com brabeza, timidez, medo e alegria as nossas cordas vocais oscilam, alternaria a nossa voz, também, diferentes tonalidades pictóricas? E mais. Será que, como as frutas, conforme vamos amadurecendo essa mesma voz pode mudar completamente de cor? Passei a me entreter com as colorações disponíveis na palheta da poesia, para buscar aquelas que pintariam minhas palavras sonoras de agora e do futuro. O resultado foi um quadro abstrato, interrompido pelo silêncio da dúvida.

Ponto.

Por Isabela Rosemback

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Antigos rascunhos atuais

Olá, letreiros!

Passei o final de semana longe daqui e acabei mal, de cama. Mas para não deixar este espaço parado, resolvi então resgatar uns textos curtos que publiquei em um velho blog, que mantinha nos idos de 2005. Nem mexi no estilo, deixei como estavam. Tenho simpatia por eles… espero que gostem da viagem!

Ponto.

Panaoquê?

“PANACÉIA” *. a menina triste ouviu e não entendeu. ‘panacéia?’, pensou… e a conversa tornou-se cinzas fonemas que entravam baixiiiiiiinhos em seus ouvidos. ‘panacéia…’, fechando os olhinhos. e fantasiou palhaços, picadeiro, bailarinas. cambalhotas e trapezistas. E rolou entre as cores… a gargalhar!!

No caminho

No ditado ouviu: atravessar. e mesmo não sabendo direito foi lá e o fez. escreveu certinho, como manda a norma: A-T-R-A-V-E-S-S-A-R. Acertou! E todos ao seu redor adoeceram. de uma tristeza tão desusada que lhes vinham à boca bolinhas de isopor. E desde aquele dia não soube escrever outra palavra senão esta, afastando de si os que hoje soletram R-E-V-I-V-E-S-C-E-R.

Por Isabela Rosemback

* Em 2005, quando foi escrito este texto, o acento existia. Preferi deixá-lo.

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Fragmentos bêbados

Olá, letreiros!

Este post é, como assim também foi o “O do Palco”, uma reprodução de um dos tais guardanapos amarrotados que encontro nas minhas bolsas depois de uma noite de boemia. Ele já deve ter bem uns meses, mas estava guardado na minha gaveta de coisas aleatórias. Espero que gostem da viagem.

Ponto.

 

Fragmentos bêbados

Praticamente todas as pessoas que circulam pela cidade de dia, à noite dormem. A cidade morre. Os boêmios que sobrevivem ao cair do dia também morrem, vomitando tripas de verdades indigestas mesmo quando não têm quem os ouça. Os boêmios de má fé se exploram, devoram, e também morrem.

E quando volta o sol, no outro dia, como ratos as mesmas verdades se escondem. Aliás, dizem que em todas as noites os gatos viram pardos. As pessoas, então, tornam-se igualmente opacas. O som se cala e a criminalidade exala.

Já de dia, as máscaras cobrem a tarde e o baile não passa de um dia comum. É como outro, ninguém se reconhece. De noite a escuridão invade, obedecendo aos tics que batem. As pessoas que circulavam, então, param para obedecer ao próprio corpo. E morrem.

Por Isabela Rosemback

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